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A imortalidade do agora

09.08.2017 - 12:09:22
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Goiânia – Em sua obra Modernidade e Ambivalência, ao definir os tempos em que estamos vivendo, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman (1925 – 2017) faz menção a uma metáfora que o conduziria na construção da ideia de liquidez como característica desse tempo.
 
Ele diz que a modernidade “é uma obsessiva marcha adiante”. Expressão que Bauman retira de Walter Benjamin (1892 – 1940), referindo-se ao anjo da história que está sempre prestes a afastar-se com o rosto voltado para o passado. Uma alusão à citação do filósofo norte-americano Ralph Waldo Emerson (1803-1882) que dizia que “quando se patina no gelo fino a segurança está na velocidade”.
 
O diagnóstico que Bauman está fazendo é que vivemos como se estivéssemos sobre uma fina casca de gelo e, se pararmos, ela racha. Essa metáfora demonstra que estamos atravessando um inverno onde está tudo turbulento, tudo confuso, as percepções estão obstruídas, as referências não estão muito claras sobre como devemos resolver os problemas, a casca é fina e, portanto, não temos tempo. É um espaço vazio, onde se anda para qualquer lado, qualquer lado vai dar em algum lugar, e nenhum dos lugares é necessariamente melhor que qualquer outro.
 
Essa dinâmica acelerada da modernidade é manifesta em nossa rotina, de fazer mais em menos tempo. A velocidade é assumida como valor máximo. A vida das pessoas passou a depender da velocidade de sua corrida. A aceleração do tempo leva a mudanças cada vez mais intensas, vitimando a “durabilidade” e favorecendo a obsolescência, inimiga da durabilidade e favorável ao consumo.
 
Antes da conclusão do processo produtivo, provoca no consumidor a ansiedade pela urgência de satisfação que, por sua vez, nunca é alcançada. O que se vive no tempo presente é extremamente efêmero e entra em desuso antes mesmo de vir a existir.
 
Lembro-me que quando era adolescente eu tinha uma namoradinha que morava em outra cidade. Nos conhecíamos desde criança, no entanto, mudei de cidade, portanto, nos correspondíamos por cartas. E entre escrevê-las, ir ao correio, enviá-las e aguardar uma resposta era um processo que durava no mínimo umas duas ou três semanas. Era um processo de “amadurecimento da espera”. Era um processo de organização dos sentimentos e de construção de laços. Era um tempo de maturação do desejo de estarmos juntos. Redes sociais, como WhatsApp e Facebook, eram inimagináveis nessa época. E isso tem pouco mais de duas décadas. No entanto parece que a geração de hoje não consegue perceber que o tempo e a vida eram possíveis antes dessa velocidade toda da informação.
 
Nas palavras de Rubem Alves: “Cartas de amor são escritas não para dar notícias, nem para contar nada, mas para que mãos separadas se toquem ao tocarem a mesma folha de papel”.
 
Não há tempo para “maturação dos desejos” ou para “amadurecimento da espera”, e a busca da satisfação projeta-se nos impulsos, o que acaba, também, por reforçar a contínua sensação de frustração e de vazio. Além disso, mergulhado em novas tecnologias, que permitem a execução rápida do que antes demorava muito tempo, o Homem deveria estar “nadando” em tempo. Porém, ao contrário, parece universal a queixa da “falta de tempo”.
O “não tenho tempo” é o mantra da moda.
 
Gilberto Dupas (1943 – 2009) aborda que com o advento da modernidade a palavra “progresso” tornou-se gradativamente um tipo de sinônimo de “moderno”, como se fosse um atestado de que estamos caminhando a passos largos para uma sociedade melhor e mais justa. Desde o século XIX esse mito do progresso, de que o recente é sempre mais “verdadeiro” ou “melhor” vem dominando o Ocidente.
 
A velocidade imposta pela modernidade vai gradativamente reconfigurando a vida cotidiana das pessoas bem como a dimensão política e econômica. Vivemos um momento de “agitação” onde todo o caos (desordem) se fragmenta em várias batalhas políticas para o estabelecimento da ordem.
 
A velocidade como a atitude máxima para salvação, atrelada à efemeridade do tempo e ao seu encolhimento, produziu indivíduos ansiosos por uma autonomia que nunca se alcança. O indivíduo trabalha, corre, paga suas contas, relaciona-se e no dia seguinte recomeça novamente o processo com aquela impressão de que não saiu do lugar, que não se deslocou, que não melhorou. É uma velocidade que aparenta não ter sentido. É um labor que parece não agregar valores ao que se vive.
 
Bauman dizia que estamos a ponto de criar um tipo de sociedade em que ficará quase impossível ter um pensamento com mais do que alguns centímetros de extensão. E essa indiferença à durabilidade dos processos da vida e ao bojo de valores que ele carrega, transforma a imortalidade de uma ideia em uma experiência que precisa ser imediatamente consumida. Ou seja, é a forma como se vive o momento é que faz desse momento uma “experiência imortal”. O ilimitado das sensações possíveis ocupa o lugar que era ocupado pelos sonhos de duração infinita.
 
Vivemos uma tirania do momento. Em que a instantaneidade faz com que cada momento pareça carregado de uma capacidade infinita. E essa capacidade infinita significa que não há limites ao que possa ser extraído de qualquer momento, por mais breve e fugaz que ele seja, alerta Bauman em sua obra Modernidade Líquida (2001).
 
É nesse contexto de mundo e de país, onde o que importa é viver o momento. Há um ambiente histórico favorável à implantação de uma reforma da previdência, de uma reforma trabalhista, de uma reforma do ensino médio, de PEC (projeto de emenda constitucional) disso e PEC daquilo, de escândalos e mais escândalos de corrupção, e o povo não reage e não se posiciona. Pois essas reformas ainda, apenas ainda, não os atingiram na pele. Atingirão nossos filhos. Atingirão nossos netos. Elas tardam, mas não falham.
 
Mas o que importa é viver o momento. É viver o agora. Afinal de contas, “não temos tempo” pra pensar essas coisas. Pensar dói. E esquecemos que o grande problema da pressa, é o tempo que ela nos faz perder.
 

*Fredson Coelho Heymbeeck Milhomem é especialista em Fisiologia do Exercício, mestre em Ciências da Religião, professor da Faculdade Estácio de Sá de Goiás e professor de Educação Física da UEG.

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por Fredson Coelho Heymbeeck Milhomem

*Mônica Parreira é repórter do jornal A Redação

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