O Ministério Público Federal da Bahia entrou, no dia 23 passado, com representação contra uma jornalista baiana. O motivo foi uma entrevista feita pela repórter com um jovem acusado de estupro em Salvador, na Bahia, transmitida pela TV. Assista ao vídeo:
Na mesma semana, surgiu no Facebook uma página com título sugestivo: “Bandeirantes, faça um favor aos brasileiros”, com o pedido de demissão da jornalista. Apenas quatro dias depois da representação do MPF, já havia na internet mais de 300 páginas sobre o assunto. A página do Facebook já tinha mais de 2,3 mil curtições.
Caso aparentemente corriqueiro, a repórter entrevistava na TV um acusado de estupro. O acusado era um jovem malvestido, preto, aparentemente pobre, de fala hesitante. A jornalista, loira para padrões brasileiros, tinha o olhar e a voz firmes.
A jornalista fez as perguntas de praxe e o acusado negou. Negou o estupro, mas confirmou o assalto. Num dado momento, o jovem acusado diz que aceita fazer um exame para comprovar sua inocência, um “exame de estropa (sic)”. A jornalista faz troça da pronúncia trôpega, pede para ele repetir e o entrevistado acaba se confundindo ainda mais, “estropa, estropo, num sei, não”. Ela então insiste, sempre firme, “exame de próstata?” Insiste uma, duas, três vezes. O jovem aceita a proposta da loira e confirma, tentando repetir balbuciante a expressão.
É a partir deste momento que a jornalista abandona sua entrevista e passa a brincar com o rapaz detido. Diverte-se, ri bastante da própria piada, como que admirando sua inteligência, deliciando-se com sua superioridade: “Você quer fazer exame de próstata? Você gosta?”
Desiguais
Jornalistas de todo o País chatearam-se com a falta de profissionalismo da colega. A emissora de TV diz que vai demiti-la. Afora o escorregão profissional, interessa também o choque entre duas poderosas forças brasileiras.
De um lado, o Brasil loiro, bem-criado, membro da classe média que mais cresce no Ocidente. De outro lado, um representante da antiga escravidão, ainda hoje pobre e desfavorecido. Ainda hoje essas duas forças se chocam com violência.
O Brasil classe A sente-se à vontade para fazer o que bem entende quando mergulha no fundo do poço social. Permanece viva na memória a livre permissão de dispor de serviçais, de pobres e pretos. Fosse o entrevistado membro da mesma classe social da jornalista, articulado e bem falante, dificilmente a jornalista teria se sentido tão à vontade para tripudiar.
No Brasil de cotas e bolsas sociais, de crescimento econômico e potência emergente, o fato infelizmente evidencia o longo caminho que ainda temos pela frente. Boas notícias econômicas à parte, tornarmo-nos um país de iguais é ainda um desafio.