Escrevi um texto há algum tempo aqui no A Redação descendo o cacete na situação esdrúxula que vivíamos na Avenida 85. O estacionamento era proibido em toda extensão da faixa, exceto no curto trecho entre as avenidas T-9 e T-10, o chamado setor das confecções. Naturalmente, o trânsito era estrangulado ali para o suposto benefício de meia dúzia de empreendedores. Estupravam a cidade para benefício privado. Agora a situação é outra. Desde segunda-feira, a Agência Municipal de Trânsito (AMT) lascou por ali aquelas plaquinhas do E com um X vermelho indicando que agora é proibido parar e estacionar. Palmas à agência, que resolveu agir. Como diz o ditado, antes tarde do que mais tarde ainda.
Contudo, preciso dar a mão à palmatória e fazer um baita mea culpa: passei pela via duas vezes e nem percebi a alteração. Só fui me atentar na terça-feira, no horário do almoço, quando meu companheiro de Rádio Interativa, o José Luiz, me alertou para o fato. Poucos minutos antes, eu havia subido a 85 e não saquei a bela presença das plaquinhas na via. No dia seguinte, novamente passei pelo trecho e aí sim vi que a decisão correta em prol da coletividade tinha sido tomada.
Isso me fez refletir no quanto nosso olhar é direcionado para aquilo que dá problema. Quando a coisa flui a contento, nosso sentido cai em uma espécie de marasmo enebriante que não se torna capaz de reconhecer a alteração positiva. Por exemplo, você só se lembra do seu dedo mindinho do pé quando chapa ele na quina da parede e dói. Fora isso, ele é um completo esquecido em sua rotina. Pelo mesmo motivo existe aquela máxima do jornalismo criada no início do século XX nos Estados Unidos: bad news are good news. Traduzindo toscamente, notícias de desgraça são boas notícias – elas chamam mais a atenção do público do que as notícias positivas.
É necessário um esforço maior para que observemos aquilo que funciona bem, que dá certo, que nos respalda. A impressão que fica é que esses fatos são mera obrigação de quem os cumpre. Por outro lado, quem nos sacaneia, prejudica e detona são eternamente lembrados. A memória não é justa nesse sentido. Maquiavel já dizia que a bondade deve vir a conta-gotas e as decisões impopulares em uma única pancada. Quem sou eu para duvidar de quem escreveu O Príncipe?
Na verdade, só costumamos dar valor àquilo que funciona quando deixa de funcionar. Um exemplo? A Marginal Botafogo. Com a sua interrupção para obras, está claro o quanto essa via é fundamental para a fluidez do trânsito de Goiânia. Ruim com ela? Infinitamente pior está sendo sem ela. Nunca deveríamos nos esquecer disso.
Então, obrigado AMT por atender uma demanda que a cidade clamava há anos e até então nenhuma gestão havia tido peito para encarar. Parabéns pelo trabalho executado!