Vi pela internet uma mobilização que tem até um nome bonito, a hashtag #NãoCotasSimEducação, mas com o objetivo real mais cabotino do mundo: a permanência da exclusão nas melhores universidades do país para que continue se dando bem quem sempre se deu bem – a propósito, o rico, o branco, o que sempre teve Todinho na geladeira. Pediam meu apoio para a divulgação. Estou aqui fazendo, mas talvez não do jeito que eles pretendiam
Na hora, saquei que esse movimento era a verdadeira Marcha do Todinho. Poderia ser a Marcha do Papai Paga Meu Wi-Fi. Ou Marcha da Mamãe Me Busca no Shopping. Tanto faz. A molecada que sempre estudou em colégios que custam os olhos da cara resolveu se mobilizar contra um projeto de lei aprovado no Congresso Nacional, o que institui reserva de 50% das vagas das universidades federais para cotas. Agora cabe à presidenta Dilma Rousseff descer a caneta e sancionar o texto. Agora sim vale o #AprovaTudoDilma. É interessante notar que enquanto não existia a proposta de ampliação das cotas, a melhoria da educação pública nunca esteve nas prioridades dessa galera. De onde surgiu esse ímpeto cidadão no coração do Setor Bueno? Deixo com você a resposta.
E eles são tão desabituados com qualquer tipo de mobilização que fizeram tudo errado. Escolheram o lugar errado e o dia errado. Por que no Bosque dos Buritis? Deve ser para pegar a sombrinha do parque e beber uma água de coco no trajeto, igual eles fazem quando passeiam com seus cachorrinhos no Vaca Brava. Por que domingo? Nesse dia o papai pode levar e buscar. Se é para mobilizar de verdade, tem que ser dia de semana e subir a Goiás até a Praça Cívica. Na boa, deveriam ter contratado uma consultoria com o MST para aprender fazer um protesto.
Fiz todo meu segundo grau em escola pública. Lanchei arroz com charque na cumbuca azul do MEC durante esses anos. Quando entrei na Universidade Federal de Goiás, dava para contar nos dedos de uma mão quem também tinha passado por essa experiência no segundo grau em minha turma de Jornalismo. Quando estamos na universidade pública, percebemos que só tem branco e gente que estudou no Bueno. Quando entramos no Eixo Anhanguera, percebemos que só tem preto/pardo e gente com uniforme de escola pública. Claro que tem algo de muito errado. E se você acredita que estudante de escola pública/negro/índio/pardo não está lá por que não deu o sangue de forma suficiente para entrar na universidade pública, bem… Preciso dizer que pensamos o mundo de forma muito muito muito diferente.
Não acredito que seja possível colocar no mesmo patamar de disputa durante o vestibular quem teve condições distintas de vida. O mérito somente pelo mérito é altamente excludente. A análise tem que ser de percurso trilhado, de onde o cara saiu e aonde ele chegou. Pegar só o fim é ignorar a trajetória. E isso é um erro grave do vestibular. Tentar compensar essa distorção que existe por vários motivos (econômicos, étnicos, culturais, políticos…) com uma bonificação como são as cotas me parece justo.
Naturalmente,as cotas devem ser uma política pontual e que não podem estar desvinculadas de medidas de médio prazo na educação pública. Penso que só teremos melhorias efetivas na educação pública quando tivermos uma elite nacional que tenha lanchado na cumbuca azul do MEC. Aquele lance de sentir na pele, sabe? E como vamos ter uma elite nacional oriunda do ensino público se o estudante não chega na universidade pública?
A última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios divulgada em 2010 mostrou que 85% dos estudantes do ensino fundamental e médio são de escolas públicas. Sabemos que esse percentual não é o mesmo quando olhamos os principais cursos das universidades públicas brasileiras. A política de cotas é uma das medidas que, somadas com outras, pode corrigir essa grave distorção.
Galera da Marcha do Todinho, me desculpe, mas se for para defender alguém nesse debate, estou com os 85% historicamente excluídos. Foi mal.