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A miopia no caso USP

24.11.2011 - 20:06:52
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Acabou o espetáculo. Os problemas da Universidade Pública no Brasil seguem. Como veiculado na grande mídia, de fato, os estudantes da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo são privilegiados, que têm tempo de fazer a “revolução” porque não trabalham. Está aí uma grande verdade: é um privilégio de “rebeldes de Toddynho” ou “rebeldes de GAP” (seja lá qual for o argumento sem substância) saber que, estudando Filosofia, Letras, História, Geografia ou Ciências Sociais, vão passar a vida exercendo a tão louvada profissão de… professor no Brasil? 
É mesmo coisa de mimados o magno privilégio de ser professor: trabalhar muito, muito mesmo, – muitas vezes além do expediente, corrigindo milhares de provas em casa – por remuneração nada invejável; em ambientes hostis como as escolas da rede pública – como não é nenhuma novidade; viver debaixo da obrigação de organizar greves pra conseguir aumentos irrisórios (se conseguir!) e, como ápice, depois de um mestrado com a estimulante bolsa que gira em torno de 1500 reais e um doutorado com bolsa que está longe do dobro disso, é possível ser professor de uma Universidade Pública, sucateada e colocada, a passos largos, à total disposição dos interesses privados. 
Exemplo da acusação de sucateamento e descaso com a Universidade Pública é o que nos faz ver o reitor da Universidade de São Paulo, o senhor João Grandino Rodas, ao dar fim ao “gatilho automático” (contratação automática de professores no lugar de aposentados) e à diminuição de vagas em cursos que não têm “demanda no mercado”. Como se pode imaginar, as Humanas não são alvo de grande demanda do mercado. Ao contrário, ofende muito ao mercado – e a quem usufrui das injustiças que fazem parte dele – que alguém ouse fazer a simples pergunta “Por que?”. 
É muita ousadia questionar o motivo pelo qual você aperta parafusos (que seja tomado como metáfora para toda função técnica, imediata e sem produção de ideias) por um salário injusto. Mas isso são discussões pra outro momento. Só é necessário que se saiba que existem muitos interesses em jogar a opinião pública contra os estudantes, que não se resume ao grupo de invasores da reitoria que, ainda que agindo equivocadamente, tiveram, sim, muitos motivos para isso para além da questão da maconha, como os ataques frequentes do reitor à Universidade que deveria ser autônoma e livre. 
O fato é que o lamentável episódio da ocupação malograda da reitoria explodiu por uma questão considerada menor e que desobedece a lei brasileira, o porte de maconha: azar dos estudantes. Somado ao fato de a ocupação ter sido levada a cabo contrária à decisão em assembléia, era o que a mídia, junto com aqueles que se esforçam pra deixar tudo absolutamente como está (inclusive a citada situação da educação no Brasil) precisavam para deslegitimar todas as reivindicações do movimento estudantil.  
Vale ressaltar que a questão do porte da droga, apesar de considerada menor, também precisa parar de ser intocável e ser debatida sem hipocrisia no país a exemplo não só de países da Europa (aí já é pedir demais tamanha capacidade de civilização), mas do México, Colômbia, Argentina e Uruguai. Deixar tudo como está cai como uma luva ao senhor João Grandino Rodas, eleito antidemocraticamente, que tanto preza tapetes persas e vocabulário hermético, como demonstração de um elitismo incurável, elite esta à qual serve a Universidade Pública a cada nova palavra de ordem do reitor.
Claro que ninguém espera imparcialidade da grande mídia. Mas o massacre contra os estudantes, alimentado pelo ódio de quem quer manter as coisas como estão, foi de proporção assustadora. Os estudantes estavam de rosto tampado? Os policiais também não levam identificação no uniforme. Os estudantes foram violentos? O relato dos ocupantes que foram detidos na reintegração (que não foi permitido à imprensa cobrir às claras) é de que não havia nenhum ato de vandalismo no prédio, mas que os policiais chegaram e quebraram muitas coisas, claro, pra justificar a truculência e matar a sede de ódio de quem “paga seus impostos”- além do espetáculo, que é de uma beleza tal qual um balet de Nijinski. 
Assusta que ninguém tenha se perguntado a real razão da ocupação e acreditado que os motivos desses alunos que, sim, estudam (como mostra um ranking saído recentemente, de que, entre os 9 melhores cursos da USP, 6 são da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas) tenha sido um simples baseado. Assusta que as pessoas não questionem antes o Estado e as autoridades nomeadas por ele (até quando arbitrariamente), como se eles já tivessem dado motivos pra serem considerados tão confiáveis assim, desconfiando e atacando primeiro de quem bate panela e causa trânsito em protestos. Assusta que os alunos sejam alvo de tantas críticas por, supostamente, depredar o patrimônio público, enquanto o reitor não é minimamente questionado sobre compra ilegal de imóveis na região da Avenida Paulista, a mais cara do Brasil. 
Coar um mosquito e deixar passar um camelo. Sem justificar atitudes violentas desnecessárias por parte dos estudantes, devemos nos questionar por que temos tanta tolerância com um Estado que nomeia arbitrariamente um reitor cuja gestão como diretor da Faculdade do Largo de São Francisco foi questionável ao ponto de ter sido, recentemente, considerado persona non grata e, em contrapartida, tanta intolerância com atrapalhados que invadem reitoria (ter havido vandalismo é altamente questionável)  como protesto (válido ou não, um protesto no meio de tanto comodismo) em dias em que o descaso com a educação e a afronta à liberdade da Universidade Pública chegam ao cúmulo. Mas a voz dos estudantes é calada na grande mídia, que conduz a opinião pública como um cão na coleira ao encontro dos interesses de quem quer tudo como está.
Fernanda Lobo, estudante de Letras da Universidade de São Paulo em mobilidade na Universidade Nacional de Córdoba, na Argentina
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por Fernanda Lobo

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