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A náusea, a flor e o vídeo

10.03.2016 - 09:11:00
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Goiânia – Em 1938 era publicada a obra “A Náusea”, do filósofo existencialista francês, Jean-Paul Sartre. Vindo à publicidade um ano antes de estourar a Segunda Guerra Mundial, o livro é bem um retrato de seu tempo do ponto de vista da total desilusão com a precária condição existencial humana, que parecia ser confirmada pelos sombrios tempos que pressagiavam o desabar da tempestade material e espiritual que se abateria sobre a civilização na segunda metade do século 20. Em 1945, por sua vez, já no findar da tragédia bélica mundial que infelizmente se materializara, Carlos Drummond de Andrade publicava “A Rosa do Povo”, que dentre seus poemas trazia um em especial que abria um diálogo intertextual direto com o pensamento sartreano em “A Náusea”. Intitulada “A Flor e A Náusea”, a poesia do volume “A Rosa do Povo” é uma espécie de elegia à Sartre em que Drummond canta a difícil condição do ser humano diante das agruras existenciais. Escreveu Drummond, em “A Flor e A Náusea”:
 
“Preso à minha classe e a algumas roupas,/vou de branco pela rua cinzenta./Melancolias, mercadorias espreitam-me./Devo seguir até o enjoo?/Posso, sem armas, revoltar-me?//Olhos sujos no relógio da torre:/Não, o tempo não chegou de completa justiça./O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera./O tempo pobre, o poeta pobre/fundem-se no mesmo impasse.//Em vão me tento explicar, os muros são surdos./Sob a pele das palavras há cifras e códigos./O sol consola os doentes e não os renova./As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.//Vomitar esse tédio sobre a cidade./Quarenta anos e nenhum problema/resolvido, sequer colocado./Nenhuma carta escrita nem recebida./Todos os homens voltam para casa./Estão menos livres mas levam jornais/e soletram o mundo, sabendo que o perdem.//Crimes da terra, como perdoá-los?/Tomei parte em muitos, outros escondi./Alguns achei belos, foram publicados./Crimes suaves, que ajudam a viver./Ração diária de erro, distribuída em casa./Os ferozes padeiros do mal./Os ferozes leiteiros do mal.//Pôr fogo em tudo, inclusive em mim./Ao menino de 1918 chamavam anarquista./Porém meu ódio é o melhor de mim./Com ele me salvo/e dou a poucos uma esperança mínima.//Uma flor nasceu na rua!/Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego./Uma flor ainda desbotada/ilude a polícia, rompe o asfalto./Façam completo silêncio, paralisem os negócios,/garanto que uma flor nasceu.//Sua cor não se percebe./Suas pétalas não se abrem./Seu nome não está nos livros./ É feia. Mas é realmente uma flor.//Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde e lentamente passo a mão nessa forma insegura./Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se./Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico./É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio”.
 
Por mais que o poema apresente um pessimismo em relação à humanidade e sua aparente desorientação, Carlos Drummond de Andrade o encerra com o símbolo imagético da flor, que remete à esperança de dias melhores em função de uma saudável condição humana. Daí, a flor drummondiana que fura o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio e emerge como um símbolo de esperança recuperado da poesia em geral, que pode ser alçada à condição de extraordinária paráfrase da célebre frase de um personagem de Dostoiévsky em “O Idiota”, que afirma que a beleza salvará o mundo. No caso, parafrasticamente, a poesia salvará o mundo.
 
Estendendo a paráfrase, poderia dizer-se também que se a poesia salvará o mundo, a intertextualidade o enriquecerá ainda mais, culturalmente.        Se “A Flor e A Náusea” constitui um riquíssimo intertexto à obra de Sartre, por sua vez possui também as suas intertextualidades que transcendem da linguagem verbal para a linguagem não-verbal, que é expressa pelas imagens. É o caso do vídeo produzido no último ano de 2015 pelo professor do Centro de Estudo e Pesquisa Ciranda da Arte, Santiago Lemos, que pode ser visto no link do site Festival do Minuto: https://www.festivaldominuto.com.br/videos/36536?locale=pt-BR
           
Na animação, o garoto se assemelha ao eu poético de Carlos Drummond de Andrade. A semelhança é mais definida pela espacialidade do que por qualquer outro elemento. De sua perspectiva infantil, o menino que caminha ao lado de um adulto pode ver o mundo por baixo, reparando em aspectos que a dimensão física do adulto muitas vezes não lhe permite observar diretamente. Ric, o personagem criado por Santiago, contempla o mundo cinza do espaço urbano mimetizado por Drummond em “A Flor e A Náusea”. No entanto, assim como o poeta, o garoto Ric encontra uma flor que nasce entre o concreto. Sua estatura permite vê-la mais rapidamente do que o adulto que o acompanha. Ao observá-la e tocá-la, o ambiente cinza se enche de cor e, por extensão, de vida.
           
A intertextualidade, portanto, entre o vídeo produzido pelo professor Santiago Lemos, do Centro de Estudo e Pesquisa Ciranda da Arte, e o poema de Drummond, é flagrante, produzindo um diálogo instigante e lúdico que na esfera escolar pode contribuir de forma significativa para o processo de letramento, pois da linguagem não-verbal das imagens se passa à linguagem verbal da escrita e leitura, despertando uma rica e simbólica leitura de mundo mediada pelas duas modalidades em que se manifesta a linguagem. Se autores como Harold Bloom, importante crítico literário norte-americano, advogam a primazia da leitura sobre o conteúdo imagético, a intertextualidade permite inferir que a articulação entre ambas as formas talvez seja o caminho mais viável no contexto cultural do século 21.
 
Gismair Martins Teixeira é doutor em Letras e Linguístia pela Faculdade de Letras da Universidade Federal de Goiás; professor do Centro de Estudo e Pesquisa Ciranda da Arte, da Secretaria de Estado de Educação, Cultura e Esporte de Goiás.

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por Gismair Martins Teixeira
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