Goiânia – Esse é um dos pontos mais discutidos entre nós LGBTs negros(as), e fora da nossa bolha também. Pois não é de hoje que homens negros ou são resumidos a sexo e pênis, ou são demonizados, ou ainda as duas coisas.
Muitos gays cis brancos tem o costume de chamar homens negros de "negão", "pauzudo", de ligar a imagem do homem negro a animais como touro, cavalo, jegue… Isso tudo por conta do suposto tamanho do pênis, que no imaginário racista é grande e voluptuoso.
Esses mesmos gays não são culpados por criar essa imagem. Ela é fruto do período da escravidão, mas eles muitas vezes reforçam propositalmente, e aí está a sua culpa, na reprodução desta imagem e da negação de que estão sendo racistas.
Para estes homens gays, sedentos por sexo, o homem negro é ótimo na cama, muitos até chegam a namorar um, mas mesmo em relações amorosas, tendem a reproduzir esse racismo, pois todos os elogios que conseguem fazer para um homem negro é sobre seu corpo, seu sexo e seu pênis.
Essa é uma lógica de dominação, pois para a branquitude, esse corpo precisa satisfazer todos os fetiches sexuais da pessoa branca, o gay branco, sendo branco (olha que novidade), acredita que o homem negro (gay ou bi), precisa ser macho, ativo e "comedor".
Não é só sobre prazer, é sobre domínio, porque se no seu imaginário branco o homem negro só pode ser ativo e comedor, é porque na sua cabeça é o seu prazer que precisa ser alcançado através do fetiche, que é racista.
O ator Michael B. Jordan só é querido e amado por muitos gays brancos pois é o típico "negão", um homem negro que pode ser hipersexualizado, assim eles podem elogiá-lo e depois dizer "tá vendo não sou racista, até acho ele gostoso", mas só acha isso.
E onde entra a demonizacão? Entra quando o homem negro não atende aos desejos dessa branquitude, aqui no caso, o gay cis branco. Se esse homem não entra em um padrão estabelecido de "desejado", só resta a ele ser odiado. O rapper Jay Z não é odiado simplesmente por ter traído sua esposa, a cantora Beyoncé. É odiado porque tem uma imagem que para a branquitude é "repugnante". O homem negro escuro, com traços grandes, que em uma sociedade com valores negros seria padrão de beleza, mas na eurocêntrica é considerado feio.
Como para esse gay branco só é possível elogiar um homem negro sexualmente, se este homem não tem esse apelo sexual (na cabeça dessa pessoa branca), não restaria nada para elogiar, apenas para descartar e humilhar.
Outro caso é o do ator Babu Santana, que acabou de participar do Big Brother Brasil 20. Se esse gay branco que só elogia o sexo do homem negro, não vê nada sexual no Babu, o que sobra é o desdém e o nojo. E se este homem negro ousar ser fiel a seus valores e não "deitar" para aquilo que esse gay branco coloca como prioridade, ele vira um monstro.
Mas não se engane, publicamente esse mesmo gay branco que odeia o Jay Z, é o mesmo que faria de tudo pra descobrir o tamanho do pênis dele, pois mesmo demonizando este homem, ele ainda é negro, e para o gay branco padrão, pênis é tudo que um homem negro pode oferecer.
Alguns gays brancos acreditam que feminismo e homofobia são as maiores mazelas do mundo, mas não tem capacidade de reconhecer seu racismo. Homens negros podem ser desejados, mas se sexo é a única coisa que você espera dele, você não passa de uma pessoa racista.
Homens brancos gays que hipersexualizam e demonizam homens negros porque reproduzem a lógica da branquitude de dominar e controlar o corpo negro querem criar uma narrativa sobre esses corpos, e odeiam quem segue contra suas prioridades.
Para finalizar, você pode sim desejar e admirar um homem negro, mas elogie inteligência, estilo, caráter, não somos apenas sexo. E a narrativa sobre nossas prioridades, somos nós quem criamos, não vocês.
Para além disso, mulheres brancas cis também fazem isso, e elas fazem porque tem poder, em uma sociedade racista, na hierarquia social, mulheres brancas oprimem homens negros pois a raça delas permite isso, na nossa organização social.
Espero ter ajudado!