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A paella e o subjuntivo

10.07.2014 - 16:18:47
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(Foto: Thiago Borges)

Goiânia – Quando você é médico, e não importa qual seja sua especialidade, você vira a salvação da sua família. Qualquer dor, mancha ou tosse de algum parente ou vizinho se converte em uma ligação para você. São ossos do ofício, e acho que dá para viver bem com isso.

Quando se é professor de português a demanda é bem menor, mas existe. E eu confesso que adoro, nada me incomoda menos que uma pergunta sobre o uso da língua.

Só é ruim quando eu não sei responder, mas isso se torna motivo para estudar mais ainda. Dia desses minha sobrinha, que mora em Brasília, enviou uma questão da prova dela pelo whatsapp e eu acabei dando uma aula de colocação pronominal.

Semana passada, estávamos jantando em família para comemorar o aniversário da minha mãe, e ela me disse que o Marcelo Rezende, apresentador do Cidade Alerta, tem mania de dizer coisas como “se eu sou esse delegado…”. Ela me perguntou se estava certo.

Eu estava terminando de mastigar para responder, quando meu irmão, que fez Física, Engenharia e Análise de Sistemas me atropelou e começou a discursar. “Ele sabe que não está certo, ele é jornalista, é um cara muito culto. Mas ele fala assim para se aproximar do público, para ganhar audiência, para falar a mesma língua da maioria que assiste o programa, é estratégia”. E eu não precisei explicar mais nada.

Meu outro irmão, que é fotógrafo, resolveu tirar onda comigo porque um dia, distraidamente, eu disse que ia comprar “quinhentas” gramas de salaminho. “Foi estratégia também?”, brincou o engraçadinho.

A verdade é que todos estavam certos. A língua portuguesa é riquíssima, tanto quanto nossos ambientes e o modo de falar em cada um deles. Diferentemente da linguagem escrita, que segue a norma culta e precisa ter um padrão, a linguagem oral é mais livre. Não quer dizer que tudo esteja certo, mas muito é permitido.

No caso de Marcelo Rezende, o certo seria dizer “se eu fosse o delegado”. Trata-se do pretérito imperfeito do subjuntivo, que nesse caso expressa ideia de condição ou desejo. Mas quando ele mistura as conjugações e usa a “língua do povo”, ele se aproxima mais do telespectador, que o percebe sendo “gente como a gente”.

No meu caso foi um lapso mesmo. Mas em alguns lugares, se você pede quinhentos gramas, trezentos gramas de alguma coisa, as pessoas ficam olhando com vontade de rir, achando que você está falando errado. Acontece que grama, unidade de peso, é substantivo masculino. A grama é aquela verdinha, do vizinho, do campo de futebol.

É muito mais rico você adaptar sua linguagem ao meio quando você conhece bem a língua e faz bom uso dos trocadilhos e da fala popular. Mas existem muitos apresentadores que têm um vocabulário popular até demais, cheio de erros grotescos que passam longe de fazerem parte de um plano consciente. Aí já beira o desrespeito a quem espera uma programação de qualidade.

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por Leticia Borges

*Leticia Borges é especialista em Língua Portuguesa, jornalista, professora e palestrante.

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