Logo

A perda do meu melhor amigo, Raulindo

28.06.2020 - 15:05:50
WhatsAppFacebookLinkedInX

Goiânia – Eu mal dormida noite, de madrugada, uma sensação anuviada da tristeza de uma grande perda se apoderou de meus pensamentos. Iniciava-se menor o segundo domingo da grande família.
 
Em 12 dias da ausência de meu irmão Raulindo, ainda me vejo como anestesiado, sentindo cada vez mais forte sua presença quase física e mental. Incrédulo.                                                    
 
Adoro todos meus outros sete irmãos, mas com ele a aproximação sempre foi maior, pois quando éramos jovens adultos, os mais novos curtiam a adolescência ou a infância. Foi sempre meu melhor amigo. Nossa identificação era tanta que quando ele e Ana retornaram da lua de mel, de uma viagem à Alemanha, os recém casados foram morar em minha casa, até se ajeitarem na nova vida.
 
Lembro-me do orgulho que demonstrou no lançamento de meu livro de memórias, ano passado, em Goiânia, com seu entusiasmo por ser o personagem central de várias crônicas sobre nossa vivência. Dizia sobre o escrito: “o caso do Seminarista, do Scoda conversível, o parceiro das aventuras da Pizzaria 110 ou da P-16, o cara sou eu”.
 
Mas o que mais me preocupa é a tristeza da poltrona vazia do apartamento da mamãe, por ele ocupada sistematicamente toda manhã de domingo, quando saía da missa e ia para grandes e agradáveis conversas com dona Nenzinha no ápice da jovialidade de seus quase 99 anos. As falas duravam toda manhã. É uma provação muito dura para mamãe, que só o tempo aliviará.
 
Em minha última ida a Goiânia, ele onde morava, fomos eu, a Clas, ele, o amigo Valterli e seu filho Bruno, tomar uma cerveja no Bar Vitória, um dos mais afamados botecos da cidade. Raulindo era um aficionado pelas delícias de boteco, um apaixonado por uma boa cerveja, que sabia beber como ninguém, sem a menor pressa em esvaziar o copo.
 
De lá fomos apreciar uma bela feijoada em seu apartamento nas vizinhanças. Coincidentemente lá estava reunida toda sua família – sua mulher Ana, as filhas Lalá e Lu, que moram em Brasília, e Gustavo.
 
Como bom anfitrião e apaixonado pela boa música do clássico popular, mantinha uma das mais ricas discotecas com milhares de discos em vinil, com todos os grandes sucessos do recente passado. A primeira coisa que fez foi me homenagear colocando na vitrola os grandes clássicos do faroeste americano, como “O Dólar Furado”, “Django” e “Alamo”. Depois as músicas de seu gosto. Seu maior ídolo sempre foi Altemar Dutra, com a canção “Sentimental eu sou, eu sou demais”. Fazia uma segunda voz ao ouvi-la. Foi tão boa a tarde, que seu filho Gustavo brincou que até parecia despedida. E foi.
 
Raulindo sempre foi uma pessoa correta, discreta, sistemática, excelente administrador e do mais agradável convívio.
 
Torço para que minha ficha nunca caia e as lembranças permaneçam sempre vivas em mim.
 
Saudades.
 
José Osório é jornalista e escritor
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por José Osório
Postagens Relacionadas
José Israel
28.02.2026
Canetas emagrecedoras e pancreatite

O debate em torno das chamadas canetas emagrecedoras ganhou um novo e relevante capítulo com a divulgação, por parte da Anvisa, de dados sobre casos suspeitos de pancreatite e óbitos potencialmente relacionados ao uso desses medicamentos no Brasil. Embora os números ainda não permitam conclusões definitivas, eles desempenham um papel crucial ao acender um alerta […]

Mara Pessoni
28.02.2026
É possível solicitar um visto para os EUA apenas para assistir a um jogo do Brasil na Copa do Mundo?

É perfeitamente possível solicitar o visto americano para assistir a apenas um jogo da Copa do Mundo de 2026. Na verdade, grandes eventos esportivos são motivos comuns e legítimos para viagens de turismo. Como você já atua na área de imigração, sabe que o desafio não é a justificativa em si, mas a demonstração de […]

Roberta Muniz Elias
27.02.2026
Infância Sem Atalhos: Proteção Total

Diante da ampla repercussão pública nos últimos dias sobre o julgamento no TJ/MG, a proteção da dignidade sexual de crianças e adolescentes voltou a ocupar o centro do debate. Decisões judiciais que, de forma equivocada, tentaram relativizar a aplicação do art. 217-A do Código Penal – dispositivo que tipifica o estupro de vulnerável – suscitaram […]

Décio Gazzoni e Antônio Buainain
25.02.2026
O papel do engenheiro agrônomo na realidade contemporânea

O Acordo entre o Mercosul e a União Europeia significa um marco histórico nas trocas comerciais no mundo, pela amplitude de países, população e valores financeiros (PIB e trocas comerciais) envolvidos. É um exemplo acabado da realidade comercial contemporânea. Do ponto de vista da União Europeia, as vantagens apontam especialmente para uma abertura de mercado […]

Leonardo Ribeiro
24.02.2026
Quaresma: rumo ao deserto para escutar e viver

Com a graça de Deus iniciamos, unidos com a Igreja, o Tempo da Quaresma. Como todos os anos, neste período de quarenta dias, somos convidados a mergulhar com intensidade e coração aberto neste tempo propício de revisão de vida e conversão pessoal. A própria Liturgia da Quarta-Feira de Cinzas, que marca o início da Quaresma, […]

Ricardo Menegatto
17.02.2026
Prejuízos causados por eventos climáticos: quais são os direitos do consumidor?

Os alertas da Defesa Civil sobre tempestades severas tornaram-se parte da rotina de moradores de São Paulo e de diversas capitais brasileiras. Com eles, cresce também a apreensão quanto à possibilidade de quedas de energia elétrica e aos prejuízos que podem atingir residências, comércios e até a saúde de pessoas que dependem de equipamentos essenciais. […]

Carla Conti
14.02.2026
Educar com consciência planetária é um compromisso com a vida

A universidade é, historicamente, a casa do conhecimento. É nela que se formam profissionais de todas as áreas e onde se outorgam diplomas que autorizam a atuação no mundo. Mas esse gesto formal carrega uma responsabilidade que vai muito além da formação técnico-científica. Em um cenário marcado por crises ambientais, desigualdades sociais persistentes e pelo […]

Anna Carolina Cruz
13.02.2026
O tempo que não temos

Há dias em que a alma pede silêncio. Não o silêncio da ausência de barulho, mas o silêncio da consciência que desperta. Tenho pensado muito na forma como estamos vivendo. Corremos como se houvesse um incêndio permanente, como se cada mensagem ou e-mail não respondido fosse o fim do mundo, como se cada prazo fosse […]