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A pílula da felicidade

05.03.2013 - 21:18:32
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Goiânia – Vez em quando vêm aos meus ouvidos Chico ou Tom Zé. De um lado, a bailarina. Aquela pessoa que todo mundo gostaria de ser, mas ninguém é. Mas, pior, aquela pessoa que todo mundo tenta se mostrar como sendo, mas não é. Não tem problema na família, nem pereba, irmão zarolho, calcinha velha ou remela. Então me lembro de Tom Zé: a felicidade vai desabar sobre os homens. Acho, inclusive, que vamos nos sufocar com tanta felicidade! Ela vem de cima, de banda, por todos os lados. Afinal, a infelicidade é proibida.

Difícil acreditar que durante 365 dias no ano, por 24 horas, estaremos exalando felicidade. Tudo estará em ordem. Nenhum problema nos afligirá. Mas a ordem é essa: ser feliz! Quem não quer ser feliz? Quem não está tentando ser feliz? Quem não busca felicidade? Mas ledo engano acreditar que só de alegrias se faz um caminho, inclusive, de felicidade.

Recentemente, folheando revistas avulsas por aí, engasguei com duas coisas que li. A primeira foi uma dessas páginas de consulta para “sucesso profissional”. A leitora escrevia que teve depressão e, por isso, foi demitida depois de dez anos no mesmo emprego. Depois tentava vaga em outra empresa e estava com medo de ser questionada sobre a razão da demissão. “Devo dizer que tive depressão?”. “Não, omita essa informação”. Foi essa a sugestão do consultor tão renomado, mas de tão renomado, prefiro não nomear.

Minha cara, o que ele quis te dizer é que é proibido ser infeliz! Mesmo que isso seja fase em sua vida. Ninguém quer gente infeliz! Nem em um trabalho, nem em outro. Nem em casa, nas festinhas de família ou no bar. Não ser feliz é quase uma doença! E pior, pode “pegar”! A ordem, concluo, é esconder o natural. Que temos problemas, que pais morrem, filhos adoecem, casamentos têm fins, traições acontecem. A ordem é superar tudo tomando uma pílula de pirlim pim pim. 

Então entra a outra página de revista que li. Uma psicóloga contava que a maioria absoluta dos pacientes que recebia com depressão ou qualquer outro problema até de ordem mais simples não queria saber de tratamento. Não quer falar dos problemas, não quer enfrentar os defeitos, as dificuldades e, principalmente, os erros. Querem remédios! Isso mesmo. Uma pílula que traga toda a felicidade de volta, sem qualquer enfrentamento.

Assistindo a essa ode à felicidade, lembrei-me uma vez de uma professora (excelente, por sinal) que dizia que odiava aquela felicidade de comerciais de margarina. Que lhe tirava o humor aquela alegria toda da família ao passar uma pasta no pão do café da manhã. Eu me lembrei dela porque, na verdade, recordei dos resmungos de colegas que, depois dessa declaração da professora, lhe chamaram de mal humorada. 

Pois bem, fiquei pensando e continuo a pensar. Mal humorado é um cara muito diferente daquele que admite infelicidades e tristezas. Gente que apetece reclamar da vida, de coisa grande e de coisa pequena (sem parar), que está sempre pronta para mostrar os lados negativos das coisas, lançar olhares blasés e custa a soltar sorrisos espontâneos é muito diferente daquele que admite que não é a bailarina e que, vez em quando, não quer que a felicidade caia como chuva. Esse tipo de gente, simplesmente, não se importa com convivência.

O problema é que ser infeliz tornou-se quase imoral. A minha preocupação, antes, é com uma massa de gente que tem negado o fato de que a vida tem infortúnios. (Sobre isso, já escrevi inclusive aqui). Envergonha-se dos problemas como se fossem desvios de conduta. Escondem a infelicidade e os problemas numa bolsa Miu Miu, num carro zero, numa foto de um risoto ou de uma cerveja na beira da piscina postados nos Instagram. Sim, quase me afogo em tanta felicidade nas redes sociais.

A busca pela felicidade, portanto, pressupõe combater todo sentimento que há de negativo em nosso interior. Angústias, tensões, desilusões, decepções e, por que não dizer, ciúmes e inveja. Todos esses sentimentos devem ser negados, combatidos, vencidos para que, enfim, a felicidade vença. Que tomemos remédios para combatê-los! Sejam eles pílulas recomendadas pelo médico, sejam nossos pequenos prazeres cotidianos. E, sobretudo, que saibamos omitir. Para a família, para os amigos, numa entrevista de trabalho e, até mesmo, para o psicólogo. “Apenas um remédio, por favor”, como quem pede uma dose de conhaque ao garçom. 

O caminho, questiono, não seria ouvir o que esses sentimentos têm a dizer? Não seria tentar compreender quais problemas eles indicam? Admitir as fraquezas, os problemas e as tristezas não seria o primeiro passo para que elas, quem sabe, pudessem ser resolvidas? Bom, é no mínimo desagradável estar de frente com aquilo que não te traz prazer. Mas desumano acreditar que isso não te pertence. Sobre-humano crer que remédios vão curar.  

Isso tudo implica em um simples sentimento: respeito por tudo que você sente e acontece em sua vida. Respeitar perdas, desilusões, mudanças e rasteiras. Sem pressa para ser feliz. Porque felicidade não vem numa pílula e viver é muito mais complicado que estampar sorrisos no Instagram.  
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por Nádia Junqueira

*Nádia Junqueira é jornalista e mestre em Filosofia Política (UFG).

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