Todo mundo sabe que a política é suja, sem escrúpulos. Todo mundo sabe que a lógica do vale tudo pelo poder é predominante. Todo mundo sabe que os mecanismos para conseguir um mandato são porcos. O problema é que sempre que vemos isso rolando, mesmo tendo consciência da existência rotineira desses atos, é aviltante. A matéria que o Fantástico trouxe nesse último domingo é de embrulhar o estômago.
Se você não sabe do que estou falando, o deputado federal Aelton Freitas (PR-MG) foi filmado dando instruções para o candidato derrotado a prefeito Donizete do Escritório, de Capetinga (MG). As dicas são aquelas de práxis: compra de voto, mentiras sobre o adversário, técnicas de garantir o mandato custe o que custar. Repito: tudo que sabemos que acontece com frequência, mas que sempre enoja quando vemos.
Infelizmente, o atual modelo eleitoral brasileiro só favorece a entrada de gente nesse perfil na política. O cara com projeto, com boa intenção e que não compactua com esquemas sórdidos como os que foram registrados, dificilmente consegue espaço. O jogo é sujo e quem não se encaixa tem que lutar duas ou três vezes mais.
De todas as pautas levantadas pelas mobilizações populares do mês passado, a da reforma política era a mais essencial. E, também por causa disso, a mais complicada para termos avanços. Independente da legalidade ou não, a ideia apresentada pela presidenta Dilma Roussef de plebiscito para alinhar questões gerais e a convocação de uma constituinte exclusiva para o assunto não era ruim. Isso poderia apontar um norte para que as pessoas que estivessem ali com fim único de debater a reforma política aprofundassem naqueles encaminhamentos tirados pela população. É claro que o Congresso sepultou a ideia.
E se não tivermos mais pressão, não tenha dúvida de que as coisas continuarão como estão ad eternum. Lembra-se do ditado que dizia que em time que está ganhando não se mexe? Pois é, todos que estão lá se sagraram vitoriosos nas eleições de 2010. Não teria razão para agirem de outra forma.
Na verdade, poderia até ser diferente caso fossem mais inteligentes. Por terem se submetido a essa escrotidão corrupta do processo eleitoral, poderiam almejar a decência no ambiente. Mas o instinto de sobrevivência fala mais alto e os caras preferem viver na sujeira com chance real de manutenção de poder a mudar as regras e correr o risco de perder a boquinha.
Enquanto não levarmos a sério a proposta de mudar profundamente a legislação eleitoral e diminuirmos a influência da grana na hora do voto, vamos conviver com imagens como as quais o Fantástico mostrou. Achei que a pressão das ruas resultaria em mudanças nesse que é o mais sensível dos pleitos populares. Já começo a pensar que me precipitei no entusiasmo.