Goiânia – O Brasil assiste, ainda sem entender profundamente os fatos, a versão verde e amarela da Primavera Árabe. É a primeira grande mobilização da geração digital brasileira. Não cabe, aqui, considerações sobre as motivações que levaram as pessoas às ruas, mas tentar discutir os mecanismos de interação entre milhares de pessoas que nunca se viram pessoalmente e que vivem espalhadas em um território continental.
Assim como nas manifestações que varreram governos ditatoriais no Oriente, as insatisfações aparentemente difusas encontraram nas redes sociais o meio ideal para canalizá-las e levá-las para o passo seguinte: tirar o manifestante do Facebook para as ruas, que é onde as coisas acontecem.
As redes sociais, assim, relembram o mito de eco: ao mesmo tempo em disseminam a semente da revolta, amplificam a colheita e a elevam a outro patamar. As cerca de 200 mil pessoas que efetivamente partiram para a marcha ganham uma voz muito mais forte do que teriam com a cobertura apenas dos meios de comunicação tradicionais. Segundo dados de empresas de monitoramento de mídias sociais, as passeatas desta semana no Brasil atingiriam 79 milhões de perfis no Twitter e no Facebook.
Outro aspecto é que, ao contrário do que ocorria no passado, quando cada manifestante se diluía na massa anônima, hoje cada um assume seu papel de protagonista da história ao postar fotos, vídeos e depoimentos nas mais diversas plataformas. Dessa forma, ao invés do olhar único e por vezes enviesado da grande mídia, temos a possibilidade de uma imersão nos fatos sob milhares de olhares diferentes e até antagônicos.
Exemplo claro foi a tentativa do apresentador Luiz Datena de induzir uma enquete claramente manipulada em seu programa na TV Band, quando buscou caracterizar os movimentos como puro vandalismo, mas teve de recuar ao se deparar com a reação do público.
Os fatos ainda estão em andamento e são fonte rica para estudos nas mais amplas áreas, da Comunicação à Psicologia, passando pela Ciência Política. Mas o recado já está dado a quem duvidava da força das redes sociais e as considerava apenas um modismo sem consequências efetivas chamado mundo real.