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A relevância de Taego Ãwa

29.05.2017 - 09:44:51
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Goiânia – Da necessidade que urge em tratar de um tema tão contundente e que se aflora a cada instante, os diretores irmãos Henrique e Marcela Borela arquitetam, a partir de fitas VHS encontradas na Universidade Federal de Goiás, um compêndio que apresenta o cotidiano na vida dos índios Avá-Canoeiro, nativos da região do Formoso do Araguaia (TO). Os diretores, cuja influência de diretores fundamentais como Andrea Tonacci e Vincent Carelli, transparecem e expõem em Taego Ãwa (2016) uma ferida exposta que deve ser extirpada.
 
A obra é uma espécie de espelho referente aos diretores supracitados, mas sem perder a autenticidade e a autoralidade do trabalho essencial realizado pelos irmãos. O extermínio dos índios parece não ter fim, e cresce na mesma proporção em que a bancada ruralista e conservadora se alastra no Congresso Nacional escancarando o conservadorismo inerente enviesado à incessante busca pelos próprios interesses em detrimento de uma visão holística e humanista. É necessário frear a propagação destas forças funestas.
 
A reconstrução, por meio de uma narrativa que mescla imagens de arquivos e atuais, aclarando as histórias acerca dessa etnia, permite aos irmãos traçarem um panorama da jornada deste povo com a devida atenção à perseguição durante a década de 1970. Corumbiara (2009), importantíssimo documentário que versa sobre o massacre dos índios em Rondônia, comprova que os fatos ocorridos são uma tônica constante e recorrente não apenas em Rondônia ou no Tocantins, mas em boa parte do território brasileiro. Há uma omissão por parte do governo e da mídia que insistem em fazer vistas grossas ou fingir que não há nada de errado no que tange ao assunto abordado.
 
Muitos anos após, os irmãos foram ao encontro da tribo situada na Ilha do Bananal, no Tocantins. Munidos do material encontrado com recortes da vida dos ãwas, são apresentadas a eles imagens que remontam desde o modus vivendi à lancinante perseguição à qual foram submetidos após um encontro forçoso com a Funai em 1973. Os ecos de uma memória que evocam a resistência dos índios são articulados diante de um roteiro acurado e embalado por belíssimos planos e uma montagem irrepreensível, como a cena que une de uma só vez o tiroteio dos filmes de faroestes, a industrialização e a invasão indígena à Câmara dos Deputados. As imagens históricas e atuais se confundem promovendo um brado que deveria ser ouvido por todos os cantos deste país. De Goiás para mundo, o trabalho dos Borela é um microcosmo repleto de desejo e de dor.
 
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por Declieux Crispim

*Declieux Crispim é jornalista, cinéfilo inveterado, apreciador de música de qualidade e tudo o que se relaciona à arte.

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