Goiânia – Nesses momentos em que você não tem o que fazer e fica descendo a barra de rolagem de sua página no Facebook, olhando desinteressadamente o que o pessoal está postando, dei de cara com um vídeo que me chamou a atenção. Em 25 minutos, o filme conta a história da revista Bizz, aquela que mudou uma geração que se interessava por música em nosso país. A obra deixa claro que nunca mais haverá na cultura musical brasileira algo com a relevância da Bizz.
Fruto do meio e do tempo, o impacto da publicação está vinculado à uma experiência única vivida pelo Brasil naqueles anos 80: redemocratização política, consolidação de um cenário de rock brasileiro mainstream e chegada dos grandes festivais ao país, em especial o Rock in Rio. Essa confluência de fatores proporcionou o impacto real e determinante da Bizz em quem produzia música, em quem era fã e em quem era curioso pelo assunto. O que, cá entre nós, não é pouca coisa.
Talvez, se não fosse a Bizz, você não estaria lendo esse texto meu agora no A Redação. Para você ver que nem tudo são flores no legado na revista… Não me recordo precisamente do meu primeiro contato com a publicação. Deve ter sido na infância, quando eu era um rato de bancas de revista atrás de gibis da Turma da Mônica e Disney, da revista Placar e figurinhas do álbum do Campeonato Brasileiro. Até hoje os donos da banca de revistas da Praça do Avião são meus amigos por conta desse período em que eu ia lá diariamente atrás desses meus vícios.
Nesse momento, eu já me interessava por música e pelo rock nacional emergente, então devo ter comprado uma ou outra edição da Bizz. Não me recordo. Foi no começo da década seguinte que esse se tornou um hábito sistemático e rotineiro. Eu havia mudado meu interesse nas bancas de revista para a Mad e a Casseta & Planeta. E a Bizz começou a também ocupar uma fatia de minha mesada gasta na banca. A segunda edição do Rock in Rio foi toda acompanhada com a revista em mãos, pegando informações sobre aquelas bandas que tocavam: Guns n' Roses, Faith no More, Information Society… Era ver o show na televisão e ler na Bizz o que eles falavam.
Entrei na Escola Técnica Federal de Goiás e a biblioteca de lá tinha uma excelente seção de periódicos. Quando a Bizz (que tinha virado Showbizz) chegava, era a mais disputada. Tinha fila para ler a revista. E entenda que esse era um mundo pré-internet. Ou seja, líamos algo de um artista que não conhecíamos, o Lou Reed, por exemplo, e tínhamos somente três opções para conhecer o trabalho do cara: comprar o disco, ter um amigo que poderia gravar uma fitinha para você ou ouvir no rádio. Na maioria das vezes, nenhuma das três hipóteses se consolidava. E você tinha que exercer seu poder criativo para tentar entender que diabos era o som daquele tal de Lou Reed.
Comecei a estagiar na Saneago no último ano de meu curso na Escola Técnica. Com meu parco dinheiro, comecei a pagar uma assinatura da Bizz. Hábito que mantive até o primeiro fim da publicação. No momento em que prestei vestibular para jornalismo, trabalhar na Bizz era uma opção que eu considerava depois de formado. A vida me fez não ter interesse em me mudar de Goiânia, apesar de algumas oportunidades que pintaram. Logo, o sonho de trabalhar na Bizz ficou guardado na minha memória junto do de ser jogador de futebol, na seção de sonhos não concretizados. O segundo recomeço da Bizz também me despertou interesse e eu a acompanhei até seu novo ocaso.
É bom observar nesse vídeo que mais pessoas também vivenciaram a Bizz na mesma intensidade que eu. Me dá uma gostosa sensação de pertencimento. Por outro lado, bate um sentimento esquisito de que a pulverização da internet não permitirá mais esse tipo de relação. Se é bom ou ruim, sei lá. Não tenho pretensão de ditar regra ou bancar o tiozão palestrando de que na minha época é que era bom. Mas que a coisa hoje é mais estranha, não tenho dúvidas.