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A saideira, por favor!

26.03.2015 - 10:05:00
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Goiânia – Então você resolve parar de beber. Por duas semanas, quarenta dias, alguns longos meses. Você fez aquela cirurgia complicada, mas a parte complicada mesmo começa agora, com o pós-operatório e as dezenas de abstinências possíveis e impossíveis. Ou você abraçou a liturgia da Quaresma, esperançoso nas recompensas divinas. Talvez nada disso, apenas criou coragem e decidiu fazer um bom detox sabático nesse corpo que não cessa em transpirar birita. Tudo certo e legítimo como deveria ser.

Mas é aí, meu caro, que se inicia a conspiração cósmica a favor do seu insucesso. As festividades mais bacanas do seu meio social brotam da terra como ervas daninhas. Seus amigos que moram em outro Estado decidem, todos ao mesmo tempo, passar uns dias na sua cidade. Os feriados, que no ano anterior coincidiram quase sempre com os domingos, dessa vez estão todos prolongados aos dias da semana. É claro, portanto, que também já estão agendados os churrascos, surgiram os convites para degustar vinhos na casa de alguém e estão devidamente marcados os encontros familiares nos restaurantes e bares.

É também nesse período de altiva resistência alcoólica que aparecem os melhores convites para eventos da sua rede de relacionamento profissional, que vão desde a inauguração de um novo e descolado pub na cidade até a apresentação da nova carta da adega que você adora. Você recusa um a um, convencendo-se de que alguma divindade está vendo e se compadecendo do seu sofrimento e lhe recompensará ao fim da caminhada. Fé passa a ser a palavra de ordem.

Mas o mundo começa a cobrar a fatura da sua sobriedade. Você vai ao supermercado comprar suco sem açúcar – porque, já que não vai beber cerveja, que esse suplício pelo menos sirva para diminuir aquela barriguinha insistente – e percebe um pequeno alvoroço de pessoas enchendo seus carrinhos com Guiness a 6 pilas. Respira fundo e passa reto, porque essa tentação maligna não lhe atingirá.

Não é fácil ser sóbrio, você constata. Todo o universo conspira contra. Aliás, você descobre a existência de uma lei da natureza que garante atenção exclusiva ao ser humano que decide parar de beber. Amparado nessa norma, o dono do mundo deixa tudo funcionando no piloto automático para se dedicar exclusivamente à estruturação de encadeamentos de fatos que vão testar sua firmeza, sua convicção, sua força de vontade. Uma questão quase pessoal entre vocês.

Não lhe importa se o mau humor atingiu magnitude 9 na escala Richter ou se sua vida social agora se alterna entre o sofá de casa e a poltrona do cinema. Cada evento etílico que você frequenta e permanece sóbrio se torna uma vitória. Vale vidas extras. Acumula moedas no pote que lhe espera ao fim do arco-íris. Bem poderia.

Esse sufoco melodramático que acomete a vida dos novos sóbrios na sociedade tem lá sua comicidade. Mas é preocupante. Não se trata de casos isolados, pelo contrário, arrisco apostar que atinge a maioria das pessoas. Não encontrei pesquisa específica sobre grupos sociais que decidem dar um break temporário na ingestão de cangibrinas, mas o fato é que não é fácil, ao menos no início, para quase ninguém. Nem para quem é obrigado, nem para quem escolhe espontaneamente se abster da taça cheia.

Em conversa com alguns amigos que atualmente enfrentam período de abstinência, percebi que a pior parte dessa história de ficar sóbrio envolve as reuniões sociais. Todos aqueles encontrinhos regados a muitas opções etílicas. Sentar-se à mesa de bar e não beber nada ou ter de se contentar com água, refrigerante, suco, dizem alguns, é tão incômodo quanto esquecer o celular em casa. Ou o sapato ou o sutiã. Fica a sensação de que algo está faltando.

Pessoas com quem convivo disseram conseguir se adaptar ao novo contexto após certo tempo. Outras afirmaram preferir evitar situações propícias ao consumo de álcool por receio de recaídas. Em ambos os casos, é espantoso constatar as interferências psicológica e social dessa substância na vida dos indivíduos. Deixar de beber, mesmo temporariamente, exige esforço, dedicação e equilíbrio. Não é tão simples e, por isso, soa como um alerta.

Apesar de legalizado, não custa nada nos lembrar que álcool é uma droga. E como tal provoca interferências no organismo humano. Uma pesquisa publicada há alguns anos pela revista médica The Lancet, que também foi tema de documentário da BBC, mostrou que o álcool ocupa a quinta posição no ranking das drogas que mais causam dependência no mundo. Fica atrás apenas da heroína, cocaína, barbitúricos e metadona.

Outra informação espantosa vem de dados da Organização Mundial de Saúde (OMS). Segundo a entidade, no Brasil, a média de consumo anual de bebidas alcoólicas é de 8,7 litros ao ano e a cerveja é apontada como a bebida preferida no país. Outro índice alarmante, segundo a organização, é a média de consumo mundial a partir de 15 anos de idade: 6,2 litros de álcool puro por ano.

Mesmo não pertencendo aos Alcoólicos Anônimos, muitos de nós acabam por desenvolver certa dependência do álcool. Uma necessidade mais sutil e discreta, que nos assola não diariamente, não escancaradamente, mas que está presente com garrinhas fincadas no nosso subconsciente comportamental. Uma existência velada.

É preciso reconhecer o tal “beber socialmente” como um tipo de vício. Que pode evoluir a um quadro clínico compulsório ou permanecer numa constância linear por toda a vida do indivíduo. Daí a importância de se estabelecer um diálogo honesto entre a limitação e o autocontrole, colocando os devidos pingos nos is e os imprescindíveis pontos finais onde necessário. Enxergar o álcool como a droga que é, sem tentar atenuar seu poder destrutivo, talvez abra vantagem na relação entre dominante e dominado.

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por Sarah Mohn

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