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A semana goiana da Contação de Histórias

15.03.2021 - 09:29:25
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No ano de 2014, a Editora de Cultura publicou uma tradução que preencheu uma lacuna que há muito constituía lamentável falha do mercado editorial brasileiro. Com a tradução múltipla de Guilherme Gontijo Flores, Adriano Scandolara, Bianca Davanzo, Rodrigo Tadeu Gonçalves e Vinícius Ferreira Barth, os leitores lusófonos puderam ter acesso a “Paraíso Reconquistado”, o clássico seiscentista de John Milton, complemento literário épico de “Paraíso Perdido”. Ambas as obras estão uma para a outra como a “Ilíada” está para a “Odisseia” na construção épica de Homero.

“Paraíso Reconquistado” traz em seus versos o diálogo entre Jesus e Satanás no deserto, quando o tentador se aproxima do Cristo para seduzi-lo com as promessas de riqueza e poder. O emissário do mal afirma, a certo ponto do titânico diálogo, que o filho de Deus deveria aprender retórica e filosofia para poder levar à conversão os povos gentios, dentre os quais se destacavam os gregos, amantes da filosofia e dos debates infindáveis. Jesus responde a seu opositor que não necessitava aprender tais conhecimentos, pois na condição de filho do Criador do mundo já os possuía, indicando o que eles tinham de útil e de inútil.

Conforme ressalta dos textos bíblicos, o recurso pedagógico das parábolas se insere no que o Cristo miltoniano via de útil na riquíssima filosofia dos gregos. Santo Agostinho, que também lança mão de recursos filosóficos helênicos em sua abordagem do cristianismo, reitera em seu clássico teofilosófico, “A Cidade de Deus”, a ideia de que o Novo Testamento resulta num desdobramento do Antigo Testamento, complementando-o e levando-o a um novo patamar de revelação. Por esse ângulo, muitas citações neotestamentárias configuram intertextos do Velho Testamento, composto das obras anteriores à vida de Jesus.

Em “Livro dos Salmos”, obra veterotestamentária, podem ser lidas as seguintes palavras no texto de número 78, que registra em seus dois versículos iniciais: “Escutai a minha lei, povo meu; inclinai os vossos ouvidos às palavras da minha boca. Abrirei a minha boca numa parábola; falarei enigmas da antiguidade”. Decorre da interpretação agostiniana que essas palavras são ditas pelo próprio Jesus antes de sua encarnação séculos depois. O evangelho de São Mateus, obra que compõe o Novo Testamento, registra em seu capítulo 13, versículos 10, 11, 35 e 36 o diálogo entre Jesus Cristo e seus discípulos e a intertextualidade profética com os livros bíblico antigos:

“E, acercando-se dele os discípulos, disseram-lhe: Por que lhes falas por parábolas?/Ele, respondendo, disse-lhes: Porque a vós é dado conhecer os mistérios do reino dos céus, mas a eles não lhes é dado;/ Tudo isto disse Jesus, por parábolas à multidão, e nada lhes falava sem parábolas;/Para que se cumprisse o que fora dito pelo profeta, que disse: Abrirei em parábolas a minha boca;/Publicarei coisas ocultas desde a fundação do mundo”.

A parábola é um gênero literário ligado à tradição oral e se constitui de uma pequena história com fundo alegórico. Tem suas origens entre os filósofos gregos, que se utilizavam de narrativas exemplares para ministrarem ensinamentos a um círculo de discípulos. Foi adotada por Jesus com finalidades didáticas em suas prédicas à multidão que ainda não possuía a acuidade intelectiva necessária para compreender os mistérios do reino de Deus, conforme ressalta o texto de São Mateus. Ela se configura, assim, como um gênero literário que compartilha as modalidades oral e escrita, com mais ênfase na oralidade, que exige de seus cultores uma performance remissiva ao teatro.

Na atualidade, contudo, a parábola se insere em uma chave maior, a da contação de histórias, que enfeixa em si finalidades mais amplas, como as lúdicas, estéticas e pedagógicas. A pedagogia tem se servido do lúdico e do estético como mecanismos de despertamento do imaginário dos educandos de todas as idades, numa perspectiva que tem ganhado uma ampla dimensão nas práticas educacionais contemporâneas.
 
Mil e uma noites em uma semana
A cena de pais lendo uma história para que os filhos adormeçam já faz parte do imaginário coletivo. Nela estão implícitas o afeto e a sensação de segurança tão importantes na fase de desenvolvimento infantil. Assim, o recurso de contação de história impregna o universo cultural da humanidade desde sempre. Um ícone universal da contação de histórias é o conjunto narrativo conhecido como “As Mil e Uma Noites”. De origem árabe e persa, a obra é uma compilação coletiva de narrativas diversas.

“Ali Babá e Os Quarenta Ladrões” e “Aladin e A Lâmpada Mágica” estão entre as histórias fantásticas mais conhecidas do público ocidental por conta de suas diversas adaptações cinematográficas. Enfeixadas em livro por compiladores ao longo do tempo, o mote das narrativas envolve a contadora de história Sherazade, que se casa com o rei Xariar. O rei fora traído por sua primeira esposa, a quem mandara executar. A partir de então, a cada noite dorme com uma mulher, executando-a no dia seguinte, pois não confiava mais em nenhuma.

Sherazade, porém, utiliza-se da contação de histórias para escapar ao cruel destino. A cada noite interrompe uma empolgante narrativa em momentos cruciais, despertando a curiosidade do rei, que vai procrastinando sua execução. O recurso é utilizado até hoje por novelas, séries e filmes. Ao final das mil e uma noites, o rei já se encontra convencido de que nem todas as mulheres são infiéis como sua primeira esposa. Assim, aceita Sherazade de forma definitiva, passando a constituir uma família feliz.

A performance individual na contação de histórias tem ganhado espaço cada vez mais nas últimas décadas. Em Goiás, o governo instituiu, em 20 de março de 2017, a Semana de Contação de Histórias a partir da iniciativa do Centro de Estudo e Pesquisa Ciranda da Arte, através do Grupo Ciranda dos Contos, que levou a proposta às autoridades competentes. Desde então, todos os anos se realizam eventos comemorativos à data. Neste ano, a IV Semana Estadual dos Contadores de Histórias será realizada entre os dias 15 e 20 de março.

A promoção da IV Semana Estadual dos Contadores de História é da equipe do Centro de Estudo e Pesquisa Ciranda da Arte, coordenados pela diretora Eliza Rebeca Vazquez, e conta com uma vasta programação em que aspectos teóricos e práticos da contação de história serão abordados por renomados especialistas de Goiás e do Brasil. No contexto pandêmico ora vigente, todas as atividades serão realizadas on-line, estando disponíveis à participação de todos através do canal do Ciranda da Arte no youtube. Do sagrado ao secular, do lúdico ao estético, a contação de história é, sem dúvida, ferramenta pedagógica essencial e que fala direto ao imaginário.
 
*Gismair Martins Teixeira é pós-doutorando em Ciências da Religião pela PUC-GO; doutor em Letras e Linguística pela Faculdade de Letras da UFG; professor e pesquisador do Centro de Estudo e Pesquisa Ciranda da Arte da Seduc-GO.

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por Gismair Martins Teixeira

*Mônica Parreira é repórter do jornal A Redação

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