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A Última Sessão de Cinema

12.12.2016 - 09:20:02
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Goiânia – Toda e qualquer arte possui, não somente uma, mas incontáveis camadas de interpretação, o que desmistifica o pensamento de que o cinema seja uma experiência coletiva. Cada fotograma é digerido de modo diferente, ressignificado de acordo com visão de mundo, predileções, experiências vividas e grau de conhecimento de cada um sobre determinado tema. 
A apreciação de uma obra de arte é dotada de uma subjetividade singular, uma tarefa árdua e solitária que, certamente, é distinta, não somente de espectador para espectador, mas também entre espectador e realizador; portanto, em um único filme há dezenas, centenas, quiçá, milhares de filmes.
 
Adeus, Dragon In, dirigido pelo malasiano Tsai Ming-liang em 2003, um dos cineastas que mais me interessam no cinema contemporâneo, versa justamente sobre olhares tão díspares e a multiplicidade de leituras. A história se passa durante a exibição de um clássico de King Hu – Dragon Gate Inn -, de 1967. Este filme selará a última sessão deste cinema.
 
Poucos espectadores ocupam algumas poltronas da extensa sala, parte deles buscando abrigo contra a forte chuva que desaba na cidade. O cinema como palco de encontros entre almas solitárias, espectros e memórias, permeado por uma melancolia intrínseca às sessões, às pessoas que passaram por esta sala, às projeções e aos filmes que foram vistos, mas que, devido à depravação do sistema vigente, não mais serão exibidos neste lugar. O futuro é incerto.
 
Há poucos diálogos e o primeiro acontece por volta de 40 minutos de projeção; todavia há muito sentimento, o não dito se torna fundamental à compreensão, sendo capaz de se comunicar mais do que quaisquer palavras. O banzo permeia todo o filme. Como não poderia ser diferente, é necessário resistir à força da indústria que quer findar o que ainda resta de filmes que não têm como único escopo o retorno comercial, mas que, sobretudo, preocupa-se com estética, forma e conteúdo, artigos cada vez mais negligenciados por uma indústria ávida pelo lucro fácil.
 
A resistência pode ser interpretada por um velho professor e seu neto presentes nesta última sessão. Ao final da projeção, o avô se comove, provavelmente, não apenas pelo filme exibido, mas, sobretudo, por tudo o que aquele cinema representa, durante um tempo em que a ida ao cinema era diferente da era atual, da qual agora seu neto faz parte. Hoje a qualidade de uma obra pouco importa. O neto, provavelmente, tornar-se-á um cinéfilo e não se sucumbirá diante das tentações perpetradas pela força desmesurável da propaganda, da disseminação em larga escala de um cinema feito para angariar muita grana.
 
Balzac certa vez escreveu que resistir é a base da virtude e é, precisamente, sobre isto que urge a obra de Tsai Ming-liang. Cada fotograma é impregnado de uma busca incessante pelo bom gosto, pela memória, pela resistência, algo cada vez mais raro em um mundo frio e pragmático. Contra o mau gosto que insiste em nos rodear, contra a falta de memória que insiste em nos perturbar, uma ode ao bom gosto, à sutileza e à beleza que são essenciais para contrapor um mundo cada vez mais vil e torpe.
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por Declieux Crispim

*Declieux Crispim é jornalista, cinéfilo inveterado, apreciador de música de qualidade e tudo o que se relaciona à arte.

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