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A vida além do muro das escolas

31.08.2012 - 01:17:21
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“Tem que sair da escola pra ver se aprende alguma coisa”. Cresci ouvindo essa frase a cada vez que tinha um bom motivo para faltar aula. Vinha da boca do meu pai, meu primeiro educador e por acaso, mestre em Educação. A sábia fala era dita quando eu pedia para não ir à aula para fazer algo, geralmente (na maioria massiva das vezes) por algo envolvendo viagem, política ou cultura. 

Passar a semana vendo filmes no FICA em pleno segundo ano do Ensino Médio. Viajar para me apresentar com o coral. Participar de alguma manifestação política. Ou, até mesmo, terminar de ler um livro porque a leitura estava muito empolgante. Meu pai dava seu aval. Muitas vezes, com o dos professores e diretores. E, cada dia mais, tenho a certeza de que ele (muitas vezes, eles) estava muito certo.

Como educador (no campo da Academia), meu pai sempre se preocupou com a formação cultural, cidadã e social do indivíduo que a escola, tal qual temos, cumpre pouco seu papel. Portanto, meu pai era um pouco indiferente às notas 10 que eu apresentava. “Não quero saber de nota, quero saber se você aprendeu”, ele dizia tirando um pouquinho da minha alegria. Por um lado, era essa a fala. Por outro, notas não significavam muito porque, em suas palavras, ele queria que a gente se transformasse em alguém “gente boa”. Um cidadão que a escola, infelizmente, não forma.

Digo, com enorme pesar, que o que carrego do Ensino Médio (tão polêmico) não representa 20% do que utilizo em meu cotidiano e na minha profissão. Todas aquelas 23 disciplinas, quilos de provas, listas para fazerem com que passasse num vestibular ficaram lá em 2007, na prova em si. Carrego mais as discussões polêmicas que alguns professores despertavam, as conversas sobre a vida, sobre política, as notícias do dia anterior e sobre caminhos que poderíamos seguir.

Desarticuladas, as disciplinas eram jogadas em aulas de 50 minutos sem que fizessem muito sentido fora dos livros e listas. Poderia ser que a física, química, matemática (ainda que sejam disciplinas um pouco distante do terreno que escolhi para trabalhar) poderiam ter feito mais sentido em minha vida. Poderiam ter sido mais importantes e interessantes. Como estudar física ou química sem “ver”? Como não haver laboratórios? Como geofísica não tem a ver com geopolítica? Com história? E até mesmo com literatura?

Assim, o indivíduo que sai desse Ensino Médio com louvor, com todas as informações das 23 disciplinas bem presas em sua mente, infelizmente, acaba dando descarga em boa parte do que aprendeu. Essas disciplinas, lecionadas com vistas ao vestibular, não fazem dele alguém “gente boa”, nas palavras de meu pai. Não só gente boa, mas alguém com capacidade de reflexão, de entender a dinâmica da cidade e do mundo onde vive. Alguém que se vê como cidadão, que se vê como parte de um coletivo com quem divide a vida. Um indivíduo com sensibilidade para entender o que está ao seu redor. 

Uma das preocupações que tenho, com essa dinâmica de enjaulamento das salas de aula, com a supervalorização dos aulismos (em especial no Ensino Médio em vistas do vestibular) é a bolha em que o jovem acaba aprisionado. O menino sai do terceiro ano sem entender como funciona o mundo fora da sala de aula. 

Lembro-me que durante o Ensino Médio eu levava minhas colegas do Jaó (onde estudava) para andar de ônibus. Inventávamos um destino e íamos. Podia ser o shopping ou o zoológico. Claro, era tudo com quê de aventura.
Nesses passeios, a gente sentia, com todos os sentidos, a vida que pulsa na cidade. O cheiro do trabalhador, ouvia os assuntos das conversas das ruas, os barracos que as pessoas armam e, sobretudo, a dificuldade cotidiana que a gente experimentava por aventura.

Uma vez levamos isso a cabo e dormimos em um apartamento vazio que meus pais tinham no Setor Pedro Ludovico e fomos de ônibus para a aula das 7h10 no Jaó. Para isso, tivemos que acordar às 5 horas. Perdemos a primeira aula, mas tivemos a experiência da maioria dos goianienses: de acordar cedo para ir ao seu destino obrigatório a, pelo menos, dois ônibus de distância. 

Bem, dessa vez, até chegar ao destino e o dia acabar, não teve lá muita graça. Foi realmente estressante e difícil fazer o que a maioria dos brasileiros fazem diariamente. Penso que falta um pouco disso na formação de quem tem o privilégio de ser carregado pelos pais da casa para escola, clube ou shopping. Ver a vida que pulsa fora da bolha. 

Por isso não me espanta, nenhum pouco, saber que havia estudantes manifestando contra as cotas em local errado (eles estavam em frente ao Supremo Tribunal Federal, enquanto deveriam estar em frente ao Palácio do Planalto). Em nenhuma das 23 disciplinas eles foram ensinados onde funciona o quê em Brasília. Os superpreparados para o vestibular devem procurar se formar fora da escola para serem cidadãos. E, por isso, tem que sair da escola para ver se aprendem alguma coisa. Nessa saidinha, por exemplo, descobriram a diferença de STF para Palácio do Planalto. O que já é grande coisa.

A minha preocupação cresce, ainda mais, quando essa ditadura do aulismo se estende para a universidade. Ali, pelo menos, há os projetos de extensão, pesquisa, os intercâmbios e outros espaços em que o aluno pode se formar cidadão e, também, um profissional mais vivido, menos ingênuo. Espaços esses, no entanto, que é o aluno quem deve ir atrás e se interessar. Superar essa valorização dos aulismos, no entanto, não é o caminho natural. Mas pode ser o caminho para fazer desse jovem alguém menos medíocre.

Por fim, coloco aqui, brevemente (ensaio escrever um texto somente sobre isso), o papel da arte na formação de
um indivíduo. Largue o balé, largue as aulas de música, encoste seu violão. É o que dizem quando alguém começa o Ensino Médio ou o terceiro ano. Palavras de ordem para diminuir a humanidade desse jovem e, se quiserem, prejudicar até mesmo na bendita prova. Lembro-me da resposta que o Ministro Ayres Britto (um poeta na alta corte, já diria a repórter Cynara Menezes) deu à jornalista quando ela perguntou o que ele aconselharia a jovens juristas para ter uma formação humanista como a dele. Ele disse que deveria haver abertura para arte. Porque sentença vem da palavra sentir. Como pode alguém sentir se não tem arte? 

Por isso, esse texto vai para quem está mesmo no Ensino Médio. Quanto você já aprendeu em uma viagem? Vendo um bom filme? Dando uma volta no centro da sua cidade? Escutando uma música e buscando entender o contexto em que foi produzida? Lendo um romance daqueles de fazer a cabeça ferver? Participando do Grêmio da escola? Então, não perca tempo: estude, mas vá viver! Viaje, cante, leia, participe, dance, se envolva. A vida exige que você seja mais do que alguém com boas notas e uma boa colocação no vestibular. A vida vai além dos muros da escola.     
 
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por Nádia Junqueira

*Nádia Junqueira é jornalista e mestre em Filosofia Política (UFG).

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