Goiânia – Já tem quase um ano que eu moro longe. E não é o longe de quem pega dois ônibus para ir ao Centro. É longe de verdade. Daquele jeito que você pega uma rodovia, passa posto policial e vai embora. Na zona rural de Goiânia, para ser mais preciso. E isso não é nenhuma hipérbole.
Sempre quando converso com alguém sobre onde eu moro, um monte de perguntas são inevitáveis: “Como você faz com as filhas?”, “Como que você consegue discotecar de noite?”, “Você vai e volta todos dias?”, “E sua vida social?”, “Que horas você acorda para chegar cedo no trabalho” e por aí segue. Tudo isso é tranquilo. Nenhuma adaptação foi traumática a ponto de pintar algum arrependimento por esse estilo de vida que a casa nova impôs. Essa era exatamente a vida que eu queria quando me mudei para esse local.
Mas tem uma coisa que ainda não consegui superar: a ausência de opções de comida que entregam na minha casa. Na hora da depressão do domingo de noite ou naquele momento em que nada da geladeira seduz o estômago, o telefone era uma saída mágica para matar o desejo do prato que fosse. De japonês a pamonha, de carne uruguaia a pit dog, de árabe a uma bela massa italiana. Era só pensar, ligar e se deliciar. Atualmente, é outro esquema.
Para ser sincero, somente uma pizzaria encara e manda seu destemido motoqueiro até o meio do mato matar a fome de quem precisa. Mas, novamente, preciso ser sincero: não aguento mais a pizza deles. Não que ela seja ruim – e também não é digna de nenhuma premiação das revistas bombadas –, mas é que comer só em uma pizzaria enjoa.
Tentei amenizar essa falta de opções com um freezer. Toda vez que estou na cidade e vou almoçar fora, já faço o pedido com folga que é para sobrar. Congelo e, na hora do aperto, lá vai o rango para o forno. Foi uma alternativa interessante, mas ainda insuficiente para a gama de serviços que existiam na cidade.
Fui criado no Setor Aeroporto. Foram 30 anos nesse bairro. Fiquei pessimamente acostumado. Tudo fácil e perto, rapidamente resolvido quando a fome bate. Minha vida agora é de uma dinâmica completamente diferente. Exige um planejamento mais aprimorado.
Mas não trocaria o que vivo hoje pelo conforto do apartamento ao lado da Praça do Avião. Ter o galo cantando ao longo do dia, passarinho ao redor, árvores frutíferas e nenhum barulho de ônibus ou caminhão é recompensador. Como diria Mano Brown, é tipo pegando as uvas no cacho. Ou como diria Cazuza, essa é a vida que eu quis.