Quem assiste pela janelinha do carro, no ar condicionado, travado em um trânsito, um ônibus lotado às 18h, pode imaginar quão infernal deve ser estar lá dentro. Quem está ali, tem certeza disso. Usuário do transporte público, a maioria da população de Goiânia passa por uma violência corriqueira e diária. Mas que não assusta mais. A violência que ainda assusta é a que aconteceu nesta terça-feira (28/5), no confronto de estudantes e polícia militar, durante o protesto contra o aumento da passagem de R$ 2,70 para R$ 3.
Nunca me esqueço de uma das cenas mais humilhantes que vi em um transporte público. Eu estava indo do estágio para faculdade. A Avenida 83, entre a Praça Cívica e o Cepal, estava completamente travada. Ao contrário da Avenida 84, essa avenida não tem corredor exclusivo – tão temido por muitos que andam de carro. O resultado disso é que em horário de pico todos ficam travados: quem está confortavelmente sentado no carro e quem está em pé espremido dentro do ônibus.
Era outubro. Vocês sabem o que isso significa em Goiás no que diz respeito ao clima. Um calor insuportável dentro do ônibus cuja lotação ultrapassava os limites do humano. Éramos mesmo um caminhão cheio de gado. Nesse trecho de menos de dois quilômetros, três pessoas tiveram que descer do ônibus porque estavam desmaiando. Afinal de contas, somos humanos e, ao contrário do gado, não suportamos calor em um espaço apertado durante muito tempo. Ainda mais pagando por isso.
Depois que o aumento da passagem foi confirmado, o presidente da CMTC, Ubirajara Abud, disse aqui em entrevista ao jornal A Redação, bem claramente:
AR – O usuário pode esperar melhorias no trasporte coletivo depois do reajuste?
UA – Não. As melhorias não dependem da CMTC. É um trabalho conjunto. Nós já melhoramos os terminais e os carros.
Para mim, isso é violência. Pagamos caro por serviços que não temos. Temos uma das maiores cargas tributárias do mundo e, de volta, temos pouco retorno. Violência é não ter uma parte do acordo respeitada. Violência é pagar caro por um serviço precário. Violência é desmaiar no ônibus, ser espremido todos os dias, não ter assento, não ter horários respeitados, não ter ônibus disponível.
Violência é ter que acordar de madrugada para chegar pontualmente no trabalho porque o transporte não funciona. É deixar de conviver com filhos, ver um filme, ter lazer, estudar para passar o tempo dentro do ônibus ou nos pontos porque o transporte é precário.
Violência é ter um aumento na passagem desproporcional aos aumentos salariais e ouvir que não podemos esperar nenhuma melhoria. Violência é assistirmos a esse aumento sem que o poder público se posicione.
Isso é violência. Isso é desordem. E como diz o chavão: “violência gera violência”. Uma manifestação, duas, três, quatro, cinco. Não é de se espantar que a gota d’água fizesse o copo transbordar e culminasse numa “guerra civil”.
No Brasil não temos tradição de manifestação. As pessoas espantam-se com o cenário que assistimos ontem. O que é diferente de países em que a população não tolera ser abusada e violentada. Como vemos na Grécia, Argentina, Chile ou Espanha. O povo reage e (algumas vezes) o Estado ouve. Aqui, toda essa briga parece não chegar aos ouvidos de quem pode resolver o problema. A razão do confronto acaba reduzida a um problema de polícia e estudantes.
Como foi relatado por todos os noticiários que li, a manifestação começou pacífica. Depois que chegou ao Terminal Praça da Bíblia e a polícia esperava pelos manifestantes, a desordem começou. Sem estarmos acostumados a manifestações, a polícia também não está. Aqui protestos são criminalizados e os policiais já respondem de imediato com truculência. Há manifestantes que respondam à força com mais violência. O cenário não poderia ser outro que vimos ontem.
Espanta-se com ônibus quebrado e pegando fogo, mas não se espanta mais com 50 pessoas dentro de um ônibus feito sardinha. Espanta-se com manifestações com paus e pedras na rua, mas não se espanta com afirmação do presidente da CMTC de que não haverá alguma melhoria com aumento da passagem. Já se tornou corriqueiro e normal o absurdo. Não chama mais atenção de imprensa alguma esses abusos. Natural, assim, que a violência explícita, com pedras e fogos, ganhe o foco.
Isso tudo assusta e espanta porque estamos acostumados a resolver os abusos pelos quais passamos de outra forma: individual e egoísta. Transporte está ruim? Então vamos trabalhar bastante, melhorar nossas competências, ter um emprego melhor para comprar um carro. Violência está assustadora? Trabalhemos bastante para conseguirmos comprar uma casa em um condomínio fechado. Saúde pública é precária? Trabalhemos para ter plano de saúde privado. Escola pública não garante formação de qualidade? Trabalhemos para pagar escolas privadas para nossos filhos.
É dessa forma que nos acostumamos a resolver problemas sociais. Assim acostumamos o poder público a ter uma população dócil e disciplinada que nunca sai de ordem. Que trabalha para driblar o que é de responsabilidade do Estado. Pois bem, se quisermos progresso, talvez seja mesmo necessário menos ordem.