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A violência velada que machuca e ninguém vê

30.11.2013 - 12:37:12
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Goiânia – De costas para câmera, voltados para mim, um olhar doce e amedrontado. Mãos de criança, sorriso de criança, corpo de menina. No colo, um bebê. Cujo pai não se sabe se é o padrasto ou o vizinho, para quem o padrasto vendia o corpo da enteada. Uma menina de 14 anos com a responsabilidade gigantesca da maternidade e as dores de estar sozinha. “Queria minha mãe para me ajudar”. A mãe foi presa porque sabia que a filha era estuprada pelo marido. “Mas ela não fazia nada porque ele batia nela, ameaçava, ela não tem culpa”, me disse a garota. 
 
Entrevistei essa garota há uns dez dias. Ela está no Centro de Valorização à Mulher (Cevam). Tem a expectativa de que até o Natal a irmã mais velha consiga adotá-la e levá-la para casa. Mas, ao que tudo indica, isso não vai acontecer logo e ela deve passar o Natal longe da família. Só ela e a bebê, com quem está tão afeiçoada; a única pessoa com quem ainda tem vínculo amoroso. 
 
Casos pesados como esse se tornam números. Em 2013, o número de estupros superou o de homicídios dolosos no Brasil. A cada 100 mil habitantes, 26,1 foram estuprados. De acordo com a ONU, calcula-se que, em todo o mundo, uma em cada cinco mulheres se tornará uma vítima de estupro ou tentativa de estupro no decorrer da vida.
 
Na terça-feira dessa semana, 25 de novembro, foi celebrado o dia de combate à violência contra mulher.  Mais triste do que a necessidade de ainda termos esse tipo de data, é que para muitos, a data não faz sentido. Foi nesse mesmo dia que ouvi que as mulheres já estão no mercado formal de trabalho, até são chefes e os homens já lavam uma louça em casa. Isso basta. São essas mesmas pessoas que têm pavor de feministas. “Exageram o cenário da violência contra mulher. Nada a ver lutar para ser igual homem”, ouvi nesse mesmo dia. 
 
Ouvir casos de como o da garota que entrevistei, sentir o estômago embrulhar ao imaginar e ter certeza de que casos como esse existem milhares, me dá a certeza de que há nenhum exagero nesse cenário. Mas não trata-se de estupros e agressões físicas, apenas. Por isso, estamos ainda mais longe do que se imagina do dia que essa data não vá mais fazer sentido. Das feministas ainda precisamos muito. 
 
Pesquisa do Instituto Avon e do Data Popular divulgado ontem (29) apresenta dados mais curiosos de uma violência que não sangra, não deixa hematomas, mas dói, machuca e, principalmente, coisifica a mulher. Faz dela um objeto de posse do homem. Mas não é de qualquer homem: é daquele que ela ama e que diz amá-la. 

A pesquisa mostra números daquela violência que considero a mais cruel, dolorida e discreta. A que acontece dentro de casa. Praticada por quem se ama e te prometeu felicidade. Aquela que ainda é considerada normal e, por isso, há de um lado, quem insiste em mostrar que essa violência não é nada normal. De outro, quem não enxerga a necessidade disso. Pois, afinal, é normal do ponto de vista de quem pratica, e não sofre o mal.

Os agressores, pais, maridos e namorados enxergam os verdadeiros agressores como aqueles estupradores (desses que atacam nas ruas escuras) e assassinos que matam por ciúmes. Pensam em homens como o padrasto da garota que entrevistei. Eles não se enxergam como agressores ao praticar uma violência de outra ordem. De acordo com a pesquisa, apenas 16% dos homens admitiram que já tiveram atitude violenta contra as mulheres. Mas, vejam vocês, esse número sobe para 56% quando ser violento implica em xingar, empurrar, humilhar em público e ameaçar com palavras. E apenas 35% deles acreditam que impedir a mulher de sair de casa é motivo para que ela procure a delegacia da mulher.

A relação começa com o amor. Depois, torna-se possessão. É o homem dono do corpo, das decisões, dos desejos e vontades da mulher. O pai, dono da filha e, depois, o parceiro dono da companheira. Para efetivar esse controle, a violência pode ser levada a cabo de diversas formas: humilhando, impedindo de sair de casa, xingando, ameaçando, ou como mostra outro dado da pesquisa, batendo. Afinal, 29% deles disseram que “o homem só bate porque a mulher provoca”. E 23% afirmaram que “tem mulher que só para de falar se levar um tapa”.
 
A pesquisa mostrou como os homens definem certas decisões que são apenas dela. 69% deles não concordam que a mulher saia com amigos sem sua companhia e 46% acham que é inaceitável que ela use roupas justas e decotadas. 
 
Os dados mostram ainda como as mulheres carregam nas costas um fardo pesado de responsabilidade. Pela casa; 89% dos entrevistados disseram que é inaceitável a companheira não manter a casa em ordem. Pela relação; 53% dos homens atribuem à mulher a responsabilidade pelo sucesso do casamento. 
 
A dificuldade que reside entre esses números e entre a realidade cotidiana de cada mulher é justamente deslocar o olhar da violência do objeto para o autor. É explicitar como, em cada pequeno gesto corriqueiro da rotina das ruas, de casa, do trabalho, a mulher ainda é constrangida e não é dona de si.

Não é normal que a responsabilidade sempre caia no colo da mulher. Pelos filhos, pela casa, pelo casamento, pelo sexo, pelo estupro, pelo vídeo íntimo vazado. Não é normal encontrar na mulher a razão pela violência. A razão reside em quem pratica e não em quem “provoca”.

Enquanto for dito que “meu marido me ajuda nas tarefas domésticas” ou “meu marido me ajuda com os filhos”, aceitaremos o deslocamento das responsabilidades para as mulheres, que, na maioria das vezes, trabalha tanto quanto o marido para sustentar a casa.

Não é normal que uma mulher não possa usar, sem constrangimento, um decote ou uma roupa justa. Que ela fique tensa ao sair de uma festa com uma roupa dessas e andar até o carro, com medo de ser estuprada. A violência não está na sua saia, mas na atitude de quem se sente à vontade para fazer o que quiser por ela estar de saia.

Enquanto a razão de um vídeo íntimo vazado for culpa da mulher, deslocaremos a responsabilidade de quem expõe uma intimidade para o colo da mulher, que faz o que todo mundo faz: sexo. 

Não é normal que tenhamos medo de andar de noite nas ruas sozinhas, que não possamos entrar no boteco da esquina para comprar cerveja sem sermos constrangidas ou levar uma cantada baixa. Que não possamos dançar em público do jeito que nos sentirmos melhor. Que seja natural sermos estupradas porque estávamos bêbadas.  

Enquanto a razão do estupro, da cantada baixa, do assédio, do sexo forçado for a roupa, o batom, o jeito de dançar, o álcool, vamos tirar das mãos do agressor a responsabilidade pela violência. Atestaremos que o corpo da mulher ainda não lhe pertence. Pertence a qualquer um, menos a ela.

Não é normal que ela não possa sair sozinha com seus amigos, sem ter a confiança do parceiro. Que ela seja impedida de sair de casa porque seu parceiro não quer. Que ele grite com ela, ameace ou xingue para impedi-la. 

Enquanto todas essas violências (explícitas como no caso da menina de 14 anos; e veladas, como no caso de todas nós) existirem, precisaremos de feministas. Precisaremos de quem incentive a denúncia, de quem mostre que isso não é normal. Gozar dos direitos e da liberdade que temos hoje sem reconhecer que isso é resultado de um processo histórico é uma típica mediocridade da geração moderna.

Isolada no presente, é incapaz de vincular seu presente a um passado e a um futuro. Uma geração que não reconhece os passos dados na história para que pudéssemos viver esse presente e não constrói nada para que, no futuro, outras gerações de meninas e mulheres gozem de liberdade que ainda não temos.

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por Nádia Junqueira

*Nádia Junqueira é jornalista e mestre em Filosofia Política (UFG).

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