No dia 26 de dezembro de 2004, a Ásia foi cenário de um dos maiores desastres naturais já registrados. Um tremor de terra com epicentro na ilha de Sumatra movimentou uma massa líquida do Oceano Índico em dimensões colossais, arrasando tudo que encontrava pela frente, num rastro de destruição e morte que ceifou a vida de cerca de 230 mil pessoas em diversas ilhas e países daquela localidade do mundo.
Como era de esperar-se, alguns anos após a tragédia das ondas gigantes o cinema se serviu do pavoroso desastre natural como gancho e cenário de narrativas fílmicas. Exemplo da primeira condição é o filme “Hereafter”, vertido ao português com o título de “Além da Vida”. Sob direção do icônico Clint Eastwood, esse filme de 2010 explora a experiência de quase morte de uma jornalista francesa que foi colhida pela tsunami enquanto realizava compras numa feira de rua. As cenas de sua luta com o que se assemelha a um gigantesco liquidificador em ação são impressionantes, sobretudo quando perde os sentidos e o espectador contempla elefante, carros e pessoas inertes na voragem das águas.
Por sua vez, a produção cinematográfica que teve como cenário propriamente dito o infausto acontecimento de 2004 é o filme hispano-americano “O Impossível”, que se baseia em personagens reais da tragédia asiática. Dirigido por Juan Antonio Bayona, o filme de 2012 relata a história da família de María Belón, ferida e separada do esposo e filhos pela violência das águas que atingiram o hotel onde se encontrava hospedada em suas férias de verão. Estrelam a produção dois atores bastante conhecidos da cultura pop, Ewan McGregor e Tom Holand, que deram vida, respectivamente, ao mestre jedi Obi-Wan Kenobi e ao herói da Marvel Studios, Homem-Aranha.
Em ambas as produções, impressiona a captação artística das imagens e sons que antecedem o momento em que o mar atinge a costa com a fúria das águas sacudidas pela agitação das placas tectônicas no fundo do Oceano Índico. O barulho ensurdecedor da agitação marítima que se aproxima não é perceptível em vídeos reais que registraram o evento. Coube à magia do cinema recuperar esses dados sinestésicos que dimensionam para o espectador o impacto do insólito evento registrado por diversas câmeras que gravaram a agitação das ondas, naquilo que Homero descreveria como sendo a fúria de Poseidon.
No contexto da literatura, as imagens cinematográficas apresentam instigante correspondência sensória com a narrativa de Edgar Allan Poe em seu conto de 1853 sob o título de “Manuscrito Encontrado Numa Garrafa”. Nesta peça contística, Poe relata as aventuras de um protagonista aventureiro que embarca em um navio na ilha de Java. Observador atento do clima, adverte ao comandante da embarcação, ao avistar uma nuvem sinistra, que poderiam ter problemas. Ignorado de maneira solene, resigna-se. À meia-noite, no entanto, resolve subir ao convés, deparando-se com a cena dantesca das ondas gigantes movidas por tempestade marítima apocalíptica. Descreve Allan Poe, em palavras que remetem à filmografia em torno da tsunami asiática:
“Ao colocar o pé no último degrau da escada, fui surpreendido por um forte ruído sussurrante como produzido por rápida rotação de moinho e, antes que pudesse averiguar o seu significado, apercebi-me de que o navio estremecia na direção do seu centro. No instante imediato, um cachão de espuma fez-nos adernar subitamente e, passando sobre nós, varreu todo o convés de popa a proa. (…) Não sei dizer por que milagre escapei à destruição (…) de tal modo terrível e inimaginável era o turbilhão do oceano alteroso e espumejante em que estávamos mergulhados”.
A POLIFONIA E A ÁGUA VIOLENTA
No tratado “Intertextualidade”, da crítica francesa de literatura, Tiphaine Samoyault, o conceito da intertextualidade é amplamente explorado em sua historicidade teórica e articulação prática. Variações conceituais em torno do termo são apresentadas por Samoyault, que traz um leque de definições de que a terminologia foi servindo-se ao longo do tempo. Ao tratar da complexidade que a referência entre textos pode assumir, afirma a autora francesa que o intertexto pode manifestar-se em práticas de fronteira e de integração em que a intertextualidade não esteja explícita: “O texto faz ouvir vozes sem que nenhum intertexto seja explicitamente localizável. Neste caso, parece preferível falar de dialogismo e de polifonia em vez de intertextualidade”.
Neste contexto, as produções fílmicas e literárias mencionadas dialogam entre si mediadas pelo intertexto implícito no imaginário da água e sua mediação artística. No campo de estudos em torno do imaginário, a água é apresentada por autores como Gaston Bachelard e Gilbert Durand numa perspectiva dúplice. Afirma Durand, referenciando Bachelard em “A Água e Os Sonhos”, que “o elemento aquático divide-se contra si mesmo, a água clara não tendo de forma nenhuma o mesmo sentido que as águas fechadas e profundas, a água calma significando o contrário da água violenta”.
No conto “Nhola dos Anjos e A Cheia do Corumbá”, publicado originalmente na obra “Ermos e Gerais – Contos Goianos”, no ano de 1944, Bernardo Élis estrutura uma narrativa profundamente sinestésica que mereceu ser incluída na coletânea da Editora Objetiva intitulada “Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século”. Nesse conto, o escritor goiano trabalha com o polo imaginário da água violenta, compondo uma história dramática que remete ao drama universal de todos aqueles que são vitimados pela fúria do elemento líquido, que dá a vida, mas que volta e meia a retira de forma cruel.
Nhola dos Anjos, o filho e o neto vivem às margens do caudaloso rio Corumbá, fustigados por extrema pobreza. Num final de tarde da estação chuvosa, uma chuva torrencial faz com que o rio suba as águas rapidamente, invadindo o casebre do infeliz trio que dividia suas angústias com um mirrado cachorro, chamado carinhosamente de Chulinho. A escuridão da noite tornou o espetáculo mais pavoroso. O rancho é arrastado pela voragem das águas. Na luta instintiva pela vida, Quelemente, o filho de Nhola, improvisa uma jangada com o que conseguiu reunir da casa destruída.
Ao observar que a jangada improvisada não comportaria mais de duas pessoas, atira a mãe que tentava equilibrar-se no canhestro barco, e cujas pernas eram paralíticas, à água. Ao pular no leito do rio para tentar encaminhar a jangada para a margem, percebeu que o local era raso, pois tocara os pés no chão. Lembrou-se da mãe e tentou encontrá-la, mas já era tarde. Narra Bernardo Élis: “Ah! se ele soubesse que aquilo era raso, não teria dado dois coices na cara da velha, não teria matado uma entrevada que queria subir para a jangada num lugar raso, onde ninguém se afogaria se a jangada afundasse… Mas quem sabe ela estava ali, com as unhas metidas no chão, as pernas escorrendo ao longo do rio?”
A imagem literária cunhada por Bernardo Élis, alusiva às pernas em molambo a escorrerem ao longo do rio, remete aos cabelos de Ofélia, personagem da peça “Hamlet”, de William Shakespeare. Ofélia tira a própria vida afogando-se em um rio dinamarquês. Sua vasta cabeleira é retratada no quadro de John Everett Millais. Em “As Estruturas Antropológicas do Imaginário”, Gilbert Durand menciona que a cabeleira é um índice que no transcurso do tempo vai firmando-se como uma imagem aquática por excelência.
O cabelo feminino vai impregnando-se culturalmente do imaginário das águas. Afirma o autor francês: “É muito a propósito do ‘complexo de Ofélia’ que Bachelard insiste na cabeleira flutuante que pouco a pouco contamina a imagem da água. A crina dos cavalos de Poseidon não está longe dos cabelos de Ofélia”. Curiosamente, Poseidon, o deus grego dos mares, causa as tsunamis quando movimenta o leito marítimo em seus ataques de fúria e atos belicosos.
As pernas de Nhola dos Anjos escorrendo pelo rio evocam, pois, a cabeleira de Ofélia, realçando o dialogismo polifônico conducente à intertextualidade e suas sutilezas teóricas no vasto campo do imaginário das águas que impregna a arte como um todo.
*Gismair Martins Teixeira é pós-doutorando em Ciências da Religião pela PUC-GO; Doutor em Letras pela UFG; professor e pesquisador do Centro de Estudo e Pesquisa Ciranda da Arte da Seduc-GO.