Das vezes que fui ao Rio de Janeiro, nunca tomei um bondinho para ver o Cristo Redentor. Antes uma aversão que tenho a pontos muito turísticos do que oposição à estátua em si. Sei que chega a ser implicância essa relutância. Assim como encasquetei que a Torre Eiffel é quase sem graça diante das graças de Paris. Ou que fui ver o Big Ben no meu último dia em Londres (e achei menor do que imaginava). A minha rebeldia, claro, não é com Cristo, Torre ou Big Ben, mas simplesmente por essa indústria de turismo superestimar um monte de coisa e subestimar outras. E, o pior, a gente achar que conhece tal lugar só porque visitou esses ícones batidos e que, cá entre nós, pouco dizem da vida ou da cultura desses lugares.
Com o Rio de Janeiro, ainda que estejamos mais em casa, não é tão diferente. Sair da Zona Sul e descobrir o que há por trás (ou por dentro) do morro deve dizer mais o que é o Rio de Janeiro do que o Cristo Redentor. O morro, cada vez mais, tem vez no Rio. E quem chega à capital do Corcovado e Copacabana, também quer conhecer a Rocinha e o Vidigal. Pacificadas, as favelas cada vez mais atraem os turistas. Quando fiquei sabendo, há muito tempo, que havia até passeios turísticos pelas favelas, achei de mau gosto. De cara, pensei. “A gringaiada quer ver como é a pobreza de perto, então?” Parecia-me algo como um safari, ir ali ver de perto o hábitat natural do que é estranho a você. Tirar foto, mostrar que não tem medo dessa gente perigosa que vive com tráfico de drogas e faz arrastão na praia. Fazer dos moradores atrações de circo.
Até que eu mesma subi o morro pela primeira vez, há quinze dias, durante minha última visita à capital do samba. E desci pensando que eu estava sendo exigente e crítica demais em minha antiga opinião. Ter oportunidade de subir e conhecer a vida do morro é simplesmente sentir e ver de perto a vida que pulsa no coração do Rio. Ver o que ainda há de menos turístico em uma das capitais mais visitadas do mundo.
Na companhia do meu amigo Ruslan, goiano, radicado no Rio há três anos, e de outra amiga goiana, Michelle, fomos a um jazz no morro do Catete, um dos primeiros a ser pacificado. Pois é, jazz no morro. Coisa de um londrino, Bill, que quis fazer do morro sua casa. E, nela, uma casa de shows onde se toca jazz. O espaço, que também é um albergue, tem três andares, cheia de labirintos e nos brinda com aquelas vistas de cartão-postal. Muitos gringos, turistas, salto alto e até brilhos entre o público do jazz. Gente de todo tipo ouvindo música de qualidade num ambiente que tinha a organização de um londrino e a simpatia do morro carioca. Na laje, de onde tínhamos a linda vista do Rio, se via ao lado uma vizinha lavando roupa. O outro estava assando um churrasco. Era essa a graça do jazz no morro, afinal.
Entre as três divas que seguraram o som a noite toda, em alto nível, estava Lena Pablo, cantora profissional há 30 anos. Morou na Europa por 15, cantando e estudando jazz, e voltou há um ano. Ela se assustou com o Rio que encontrou ao retornar. Quando ela deixou o país o morro não recebia turistas e a Lapa estava às moscas. Ela me contou estar impressionada com a quantidade de artistas fazendo música de todo tipo e o tanto de gente querendo conhecer. “Eu sou apenas mais uma hoje na noite carioca”. A cantora de jazz disse estar encantada em ver que as pessoas estão conhecendo o morro e quebrando estereótipos que carregam há anos.
Ao final do show saímos às ruas para tomar a extensa fila da kombi que levava aos pés do morro. Mas ninguém estava com vontade de ir para casa. Aliás, a gente se sentia em casa. Eis que passa por nós a pessoa-chave para nos levar para aquele boteco-fim-de-noite. Celinha, mulata cheia de simpatia e bem custosa, no bom goianês. Nós a tinhamos conhecido, por acaso, antes de ir para o jazz, pelas ruas do morro. Trocamos umas palavrinhas e, pelas coincidências da vida, a reencontramos no fim da noite. Sem titubear, seguimos Celinha e fomos tomar uma cerveja com ela num boteco por ali.
Bom, aí sim a gente foi conhecer o morro. No bar, a festa estava armada com, apenas, eu, Michelle, Ruslan, Celinha, sua amiga que tinha acabado de se separar do marido e Dalvinha, senhora de 65 anos (dessas mais custosas que Celinha). Um ou outro gato pingado assistia à gente dançando e se divertindo com a Juke Box, aquelas máquinas em que colocamos moedinha e toca a música escolhida. Entre uma música e outra, as histórias de vida de Celinha e Dalvinha. Vício em jogo do bicho, abandono de marido, gente que deixou o Nordeste, sua terra natal, que foi mãe aos 15, vó aos 30. Histórias contadas sem o menor penar, em meio a goles e danças. Descemos o morro quando o sol nascia. Junto conosco desciam outras pessoas prontas para o trabalho.
É esse o morro que quer se mostrar. Morro que guarda vidas e histórias difíceis, mas sem tristeza estereotipada por aí, por trás dos moradores. Guarda cultura, artista e diversão dentro de cada canto. É a vida em comunidade, que falta em tanto canto desse país, que encanta. É essa vida que faz tanta gente orgulhosa do morro e insistente em dali não sair. Querem viver em paz, com saúde e com todo direito de qualquer cidadão. Mas querem viver ali. E daí que, depois da noite com Celinha e Dalvinha, inevitável me lembrar do FB (Éfibêa, no carioquês), dono da barraca em Ipanema. Ele mora no Vidigal e contou para mim e para minha amiga. “Meu pai morreu com dois tiros, mas era do bem. Meu irmão também levou na cabeça, mas mexia com coisa errada. Eu? Tô aqui ralando todo dia pra poder morrer tranquilo e feliz ali ó, no Vidigal”. Abram alas, então, para o morro.