Goiânia – Por esses dias assisti a um documentário sobre segurança alimentar. Este é o nome que se dá no mundo todo para falar das necessidades de comida em vários países, da fome que assola muitas nações e, incrivelmente, o Brasil. Sim, muita gente passa fome no Brasil enquanto nossos políticos fecham os olhos, se locupletam, favorecem parentes e amigos e estão pouco se lixando. Mas voltemos ao documentário. Falava que mundialmente várias nações há anos aprenderam que não precisa alimentar animais apenas com milho, farelo de soja etc.. Que quando dão aos animais restos de alimento humano geram excedentes capazes de eliminar a fome de quem precisa.
As imagens mostravam países como Japão e Estados Unidos, que reúnem e processam produtos perto de vencer, restos de folhas e frutas separadas em atacadões ou centros de abastecimento. Além de gerar uma cadeia de muitos empregos, todo esse produto vai para porcos e aves, por exemplo. Segundo especialistas, além de todo o benefício para a fome mundial, a carne do animal fica mais saborosa na comparação com rações e milho. Ou seja, é o alimento que não serve mais produzindo novos alimentos de qualidade.
O vídeo mostrava a indústria do suco, de produtos como bolacha e pão reprocessando tudo o que estava vencido ou considerado impróprio. Claro que não é coisa estragada, mofada, mas que não pode mais ir para a prateleira. Aqui no Brasil, em muitos lugares do interior dos Estados e nos guetos dos grandes centros, há gente passando necessidade e não se vê um movimento no sentido de tentar corrigir isso.
Num país que é líder na produção de grãos, que tem terras agriculturáveis a perder de vista, isso jamais poderia acontecer. Antonio Ermírio de Moraes, numa espécie de cantilena, sempre dizia que o Brasil aproveitava apenas 5% das terras com potencial para a agricultura. Hoje, claro, deve ser mais, mas o espaço para a produção crescer deve ser gigantesco. Uma ínfima parte destinada a estas pessoas iria promover esses brasileiros a outro patamar, o da dignidade.
Escrevo isso no domingo Dia dos Pais, quando boa parte das mesas estarão fartas e em muitas casas as crianças não terão sequer um pão seco para dividir. Lembrei também de uma história do fim da Segunda Guerra, que explica a valorização do frango na cadeia alimentar americana. Com a guerra, o gado era destinado a abastecer as tropas.
Os fazendeiros, endividados e sem recursos, sem mercado consumidor e sem confiança, deixaram de produzir. Com isso, carne de gado ficou escassa e cara e os mais pobres não podiam comprar. Então uma rede de supermercado teve a ideia de vender frango, até então usado basicamente para a produção de ovos. Supriu parte desse mercado, até que em 1945 acabou a guerra e as coisas foram voltando ao normal.
Em 1948, ocorria o contrário. Ninguém mais querida aqueles frangos esquálidos, magros e sem g osto. O supermercado, que investiu muito nisso, iria quebrar. Mas teve a ideia de lançar um concurso para a melhoria genética. A campanha chamava O Frango do Futuro. O prêmio era alto e não demorou para que as aves passassem a ser saborosas e gordinhas, veio a ideia do fried chicken – o frango frito – e virou febre. Isso tudo, a história do começo desse texto e a segunda, mostra que quando há disposição e vontade tudo se resolve.
No Brasil, vivemos apenas uma questão de distribuição. Temos muito alimento num lugar e muito pouco noutro. Temos boas condições de produção numa região e pouca ou quase nada em outra. Então, agora que estamos em campanha eleitoral, eu votaria em alguém que ao menos demonstrasse essa preocupação. Mas não. No Brasil um restaurante que queira doar diariamente as sobras corre o risco de ser fechado ou multado. As autoridades dizem que há o risco de quem consumir ficar doente, que quem doa pode ser responsabilizado.
O empresário se sente com medo das autoridades, que nada fazem para ajudar e resolver isso. No Rio, vi outro dia, uma padaria coloca produtos bons e que estão por vencer numa cesta à porta e desses produtos podem se beneficiar quem quiser e precisar. Atitudes assim são louváveis e deveriam fazer parte da nossa cultura sempre. Bem, isso é o que me toca hoje, Dia dos Pais.
Espero que todos tenham mais amor ao próximo, pensem no que poderiam fazer para ajudar, em termos de ações concretas e ideias. Há muitas ONGs e entidades fazendo coisas nesse sentido, bastaria o governo encampar a causa e tratar o tema como prioridade. Estimular a produção familiar, criar incentivos a quem doa, criar mecanismos de carrear parte da produção para quem precisa, criar uma política de aproveitamento de alimentos para os animais.