A infância teve cheiro de mato e gosto de fruta no pé. Junto com os 12 irmãos, corria pelos campos de Cerrado, em Jataí, descalço, subindo em árvores e rindo sem parar. A adolescência chegou e, com ela, os flertes, os olhares, os namoros. Mas no meio do caminho havia um tiro. Aos 17 anos, vítima de um disparo acidental, Corivaldo Ferreira de Moraes ficou paraplégico.
O gosto doce de fruta na boca ficou amargo. Do riso, fez-se o pranto. Corivaldo não queria mais sair de casa. Foi então que recebeu de uma freira que foi visitá-lo o conselho que mudaria sua vida. “Tudo o que homem precisa está aqui”, disse ela, apontando para a cabeça. “Se seus pés não lhe conduzem mais aonde sua mente quer ir, arranje outra forma de caminhar”.
Corivaldo, que não assumia sua condição de cadeirante fora de casa, entendeu que, dali para frente, aquela cadeira de rodas é que o levaria aonde sua cabeça mandasse. Depois de passar um ano e meio em Goiânia, fazendo tratamento médico, decidiu morar de vez na capital. Mente sã e corpo são, agora era hora de correr atrás dos sonhos do coração.
Em busca de independência, Corivaldo passou maus bocados. “Quando eu ia pedir emprego, as pessoas pensavam que eu queria esmola”, lembra. Finalmente, encontrou uma chance no Sindicato dos Bancários do Estado de Goiás. Nessa entidade, ele foi contratado para trabalhar na gráfica e permaneceu no cargo por 23 anos. Nesse período, também casou, teve uma filha e se divorciou.
Ao sair da gráfica, Corivaldo foi convidado a tomar conta do clube do Sindicato, onde permaneceu por mais sete anos. Aposentado, ficava observando o mato abandonado que crescia em frente à sua casa, no Conjunto Itatiaia. Eis que, então, o cheiro da roça e as lembranças dos campos de Cerrado invadiram sua mente – a mesma que comanda o corpo — e ele decidiu agir.
Primeiro, lutou para que o local fosse transformado em praça. Como a área era grande, percebeu que poderia abrigar um parque. Pedia ajuda insistentemente à Prefeitura. Um dia, sua solicitação foi ouvida. Mas o desafio não terminava aí. “As árvores foram plantadas antes da chuva e poderiam morrer se não fossem constantemente regadas”, conta.
Disposto a impedir a morte das mudas, Corivaldo improvisou um sistema de irrigação curioso. Enchia garrafas pet de água, fazia pequenos furos nos recipientes e os enterrava junto aos pés da planta. No começo, quem passava pelo parque não entendia nada. Porém, a engenhoca deu certo e, rapidamente, as árvores irrigadas ficaram verdes e saudáveis.
As centenas de mudas de ipês (amarelo, roxo e branco), jatobá, caroba e paineira (barriguda) do Parque Itatiaia receberam, ao longo de um ano, muito cuidado de Corivaldo. “Cheguei a encher 1,8 mil garrafas por dia, porque a comunidade viu que dava certo e passou a fazer doações dos vasilhames para a irrigação”, recorda.
Uma árvore, em especial, recebeu grande atenção do aposentado. Trata-se de uma sibipiruna, plantada em frente à casa dele. “Quando a muda chegou, eu fazia sombra para ela. Hoje, ela é quem faz sombra pra mim (veja a foto)”, diz, aos risos. Mas nem tudo são flores. As mudas, tão carinhosamente cultivadas, tornaram-se alvo de vândalos no parque.
Um dia, a comunidade que mora em frente à unidade de conservação acordou e viu que dezenas de árvores estavam quebradas, destruídas. “Algumas gangues que atuavam no bairro passaram por aqui e fizeram um estrago grande”, conta Corivaldo. Ele foi orientado pela polícia a parar de irrigar as plantas com garrafas pet, pois, se elas fossem incendiadas, o dano seria ainda maior.
Sem poder regar suas plantas, o jeito encontrado por Corivaldo para proteger a natureza foi conversar com as crianças e jovens, alertando para a importância de preservar as mudas e o parque, como um todo. “Eu não brigava. Apenas explicava, pacientemente, que não se pode destruir o que temos de mais precioso”, esclarece.
O recado foi entendido. Aos poucos, as ações de vandalismo foram diminuindo e hoje o parque está inteiro. Enquanto esteve na casa de Corivaldo para entrevistá-lo, a repórter entendeu a razão de tamanha persuasão. Dotado de uma serenidade de monge budista, ele também trata a todos com carinho e atenção.
Nos cerca de 40 minutos que a reportagem esteve na casa do seu Cori, como é conhecido, quase uma dezena de vizinhos e amigos passou por lá. Alguns queriam pegar o resultado das loterias – que ele busca na internet e compartilha com quem não tem computador –, outros pediam sugestões para consertos domésticos, e todos queriam saber se ele estava bem.
A repórter pergunta se ele nunca fica triste. “Nunca. Só quando não posso pescar no Rio do Peixe, em Mozarlândia”, responde, com uma gargalhada. E qual o segredo de tamanha felicidade? “A vida é curta demais para vivermos retraídos. Tudo o que a gente aprende é com outro. Todo tanto de abraço, amor e alegria que recebemos, já vale o viver”, resume.
De onde vem tanto amor pelo meio ambiente? “Acho que do meu sangue índio, que fala alto”, justifica Corivaldo, cuja avó materna era índia. “Sabe, moça, a gente vive na cidade porque não tem jeito. No fundo, todo mundo gosta e precisa da natureza”, sentencia. O compositor Beto Guedes concorda com seu Cori. Como diria a canção, “tudo o que move é sagrado”.