Logo

Ansiedade humana, serenidade felina

12.08.2025 - 07:43:50
WhatsAppFacebookLinkedInX
A família tem dois novos membros: Nix e Apolo XI. As crianças pediam, desde sempre, um cachorro ou um gato. Eu gosto muito de bichos, mas o trabalho, o custo e a responsabilidade nos fizeram resistir durante muitos anos. Não sei bem o que aconteceu. Talvez seja a idade e o gosto cada vez maior por esse lugar estranho que se chama casa — que ganha algo a mais de casa com dois gatinhos para tropeçar.
 
Gosto de cachorros também, mas não tenho paciência pra carência e pra demanda constante. E sempre gostei de gatos, mas, de um tempo para cá, a coisa parece ter virado uma paixão. O feed do meu Instagram basicamente se divide agora entre notícias do Flamengo e vídeos de gatinhos.
 
Outro motivo, penso, pra termos resistido por tanto tempo foi a preguiça diante da verdadeira doença em que se tornou a relação entre seres humanos e animais em geral, especialmente os domésticos.
 
Acho, sim, fundamental o debate ético sobre nossa postura em relação a outros seres vivos. Por mais que tenhamos evoluído ao longo de centenas de milênios caçando e comendo carne, é difícil não ver algo de errado na industrialização da morte de animais. Aliás, considero o argumento moral muito melhor resolvido para a opção pelo vegetarianismo ou pelo veganismo do que o da saúde, altamente controverso e com fortes evidências hoje em favor de uma alimentação com alto teor de proteína animal.
 
No que diz respeito a criar animais de companhia, a humanização dos bichos há muito cruzou uma linha de exageros e deformações. Se a indústria da carne é moralmente questionável, o que dizer da indústria dos pets, num mundo em que mais de 700 milhões de pessoas — quase 10% da humanidade — passam fome? Segundo dados do Euromonitor, o mercado em torno dos animais domésticos movimenta cerca de 200 bilhões de dólares por ano. Esse dinheiro não resolveria toda a fome do planeta, mas daria um bom empurrão. Sem contar o imenso impacto ambiental que a população de cachorros e gatos tem hoje. Só no Brasil, estamos falando de 74 milhões de indivíduos das duas espécies, que consomem, geram dejetos e emitem gases de efeito estufa.
 
Como em tudo na vida, a despeito de nosso desejo por pureza e verdades absolutas, a condição humana nos exige escolhas difíceis e parciais. Afirmações morais categóricas quase sempre servem para disfarçar nosso mal-estar, porque, no fundo, sabemos que as escolhas têm esse preço.
 
Como carne, mas sei que essa escolha contribui para as mudanças climáticas e impõe sofrimento aos animais. Tenho agora dois gatos, mas mesmo assim não me agrada o discurso moral da proteção aos animais, nem sua humanização. Decidi tê-los pelos benefícios pessoais e pela alegria das crianças, mas ciente dos impactos dessa decisão.
 
Acho que, cada vez mais, vejo nos gatos o oposto do que sou e, quem sabe, um antídoto para minha condição ansiosa. Vivo sempre alguns minutos à frente do presente, sinto-me sempre atrasado; as ambições vaidosas e os ideais me puxam para o futuro e me impedem de viver cem por cento o momento. Igualmente, minha preocupação com a autoimagem e o olhar alheio me levam a escolhas erradas, fazem-me fazer coisas que não quero em busca da ilusória aprovação.
 
Os gatos são o contrário de tudo isso. Nix e Apolo XI não têm ambições e não desejam chegar a lugar algum imaginado. Vivem em função de otimizar seu gasto de energia e seu bem-estar. Dormem sempre que podem e buscam nossa companhia quando precisam de água, comida ou conforto. Eles não se preocupam comigo.
 
Acho que quem me convenceu a adotar gatos, no fim das contas, foi o filósofo britânico John Gray que, em seu Filosofia Felina, lembra que “a fonte da filosofia é a ansiedade, e os gatos não sofrem de ansiedade, a menos que sejam ameaçados ou se encontrem num lugar desconhecido. (…) Os gatos não precisam da filosofia. Obedientes à sua natureza, eles se contentam com a vida que esta lhes oferece. (…) a felicidade é seu estado natural, desde que não haja ameaças ao seu bem-estar. Talvez seja essa a razão principal pela qual muitos de nós amam os gatos. Eles detêm o direito inato à felicidade que os humanos geralmente fracassam em sentir.”
 
No fundo, espero, ao admirar Nix e Apolo XI em seu banhos de sol preguiçosos e seus passeios elegantes pela casa, absorver um pouco de sua paz e, quem sabe, aprender a viver mais no presente.
 
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Pedro Novaes

*Diretor de Cinema e Cientista Ambiental. Sócio da Sertão Filmes. Doutorando em Ciências Ambientais pela UFG.

Postagens Relacionadas
Joias do Centro
27.02.2026
Uma árvore, muitas camadas de memória na Rua 20

Carolina Pessoni Goiânia – Há árvores que oferecem sombra. Outras oferecem memória. Quem passa pela Rua 20 talvez veja apenas mais uma delas, de grande porte, em frente ao antigo casarão que abrigou a primeira moradia de Pedro Ludovico e, mais tarde, a Faculdade de Direito que deu origem à Universidade Federal de Goiás (UFG). […]

Meia Palavra
27.02.2026
‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’ leva humor, aventura e bondade para Westeros

Se tem um universo que parece ter gerado uma terrível ressaca coletiva é o de Game of Thrones. Após o final patético da série e duas temporadas ocas de A Casa do Dragão, parecia que qualquer tentativa de retomar esse mundo no streaming não teria a menor chance de reconquistar a boa vontade da audiência. […]

Noite e Dia
27.02.2026
Evento na sede da OCB/GO marca lançamento do maior congresso de cooperativas de crédito do mundo; veja fotos

Carolina Pessoni Goiânia – O Sistema OCB/GO lançou, nesta quinta-feira (26/2), o 16º Congresso Brasileiro do Cooperativismo de Crédito (Concred), maior evento do cooperativismo financeiro no mundo. A apresentação foi realizada no edifício Goiás Cooperativo, em Goiânia, com a presença do presidente do Sistema OCB/GO, Luís Alberto Pereira; do presidente da Confederação Brasileira das Cooperativas […]

Noite e Dia
25.02.2026
Prêmio Mais Influentes da Política em Goiás reúne autoridades e personalidades em Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – A entrega das premiações da edição 2026 do Prêmio Mais Influentes da Política em Goiás foi realizada nesta segunda-feira (23/2). Promovido pela Contato Comunicação, a 16ª edição foi realizada na Câmara de Goiânia, no Auditório Jaime Câmara. O reconhecimento contempla os nomes mais citados por jornalistas e formadores de opinião do […]

Projetor
24.02.2026
Talvez

Já falei em outros artigos sobre a dificuldade de opinar toda semana. Há motivos pessoais e questões culturais envolvidas nisso. Em termos pessoais, tenho opiniões duras a depender do assunto. De forma geral, entretanto, é a dúvida que me guia. São características enraizadas em toda uma história de vida das quais não se pode escapar. […]

Noite e Dia
23.02.2026
Posse solene de desembargadora do TJGO reúne autoridades em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A solenidade de posse da desembargadora Laura Maria Ferreira Bueno foi realizada na última sexta-feira (20), no Plenário Desembargador Homero Sabino de Freitas, na sede do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJGO), em Goiânia. Sob a condução do chefe do Poder Judiciário estadual, desembargador Leandro Crispim, a cerimônia cotou […]

Curadoria Afetiva
22.02.2026
Cerradim e um Jardim

A ideia de formatar o evento “Cerradim” partiu do desdobramento do “Projeto Goianins”, realizado ano passado, com oficinas criativas para crianças típicas e atípicas, cujo resultado dos trabalhos artísticos foram projetados nas paredes dos muros dos moradores da rua do entorno do Jardim Potrich. A idealização desse espaço multicultural sempre esteve vinculada a duas principais […]

Joias do Centro
20.02.2026
Feira Dom Bosco: raízes, tradição e trabalho na região central de Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – Antes mesmo de o sol firmar presença no céu de Goiânia, as ruas do Setor Oeste já começam a ganhar outro ritmo. O cheiro de fruta cortada, o peso das caixas descarregadas ainda na madrugada e as primeiras conversas entre fregueses antigos anunciam que é dia de feira. Às terças e […]