Goiânia – Durante o ano de 2015 o Sebrae em Goiás realizou várias ações de fomento às startups, empreendimentos que possuem um modelo de negócios repetível e escalável e que, por serem extremamente inovadores, lidam com condições de extrema incerteza, uma vez que, muitas vezes, criam produtos ou serviços ainda inexistentes (não havendo como saber se o produto da empresa irá realmente dar certo ou, pois nunca foi testado).
Em suas ações de capacitação o Sebrae trouxe para os empresários que se despontaram por sua trajetória de sucesso no mundo dos negócios, após fundar empresas que receberam investimentos milionários e se tornaram casos de sucesso aqui e no exterior.
A título de exemplo, citamos as palestras proferidas por Ana Julia Ghirello (uma das fundadoras do bomnegócio.com em 2011, empresa que foi comprada pela OLX em 2015), bem como a palestra de Tallis Gomes, Fundador da Easy Taxi.
Outro destaque foi a realização do workshop “Imersão 360 graus para empreendedores”, ministrado por Daniel Dalarossa, primeiro brasileiro a vender uma startup no Vale do Silício, a Cyclades, por US$ 90 milhões e que compartilhou com os participantes deste curso dicas práticas sobre inovação, liderança, marketing e a construção de um negócio rentável.
De todas as ações, a que mais nos surpreendeu foi a realização do Programa de Pré-aceleração de Startups, que auxiliou o participante a identificar o perfil empreendedor de sua equipe, validar seu modelo de negócios, usar ferramentas de Lean Startup, Management 3.0, Design Thinking, análise dos aspectos jurídico- financeiros, culminando em um pitch apresentado para uma banca de investidores.
Em síntese, um programa de pré-aceleração de startups tem como objetivo ajudar empresas que tenham modelo de negócios replicável e escalável a crescer de maneira rápida e alcançar seu break even (quando elas conseguem pagar suas próprias contas) no menor tempo possível, fomentando a consolidação da startups para que ela consiga atingir o lucro almejado.
Após o evento, ao fazer a análise junto às empresas participantes, em termos da aplicabilidade do conteúdo, para a nossa surpresa a empresa que relatou ter obtidos resultados mais expressivos, por meio da implementação do conteúdo visto durante o programa de pré-aceleração foi uma empresa do segmento de gastronomia, a Bistrôgonoffe, que não se enquadra como uma startup, uma vez que lida com produto físico e cujo modelo de negócio possui restrições de escalabilidade (uma das principais características de uma startup, que lhe permite um crescimento viral, com ampliação exponencial da receita, sem aumento proporcional nos custos e sem que isso interfira no modelo de negócio).
Criada em 2011, com um modelo de negócio inovador, a Bistrôgonoffe tem como produto um prato tradicional e nacionalmente conhecido, o estrogonofe, que serviu de mote para a implantação uma nova variação dos já conhecidos modelos de fast food e segundo André Beleza, proprietário da Bistrôgonoffe, “a participação no programa de pré-aceleração permitiu colocar em prática ferramentas que foram desenvolvidas para startups e que podem ser apropriadas por empresas de base tradicionais, como o Canvas, o MVP e o ciclo construir-medir-aprender. Em um curto espaço de tempo, pudemos implementar várias melhorias, testar e validar hipóteses que permitiram reduzir o tempo de atendimento e colocar em prática um novo modelo de expansão”.
Ferramentas de gestão
O “Business Model Canvas” permite um modelar um negócio, adaptado à realidade em que vivemos, marcada por mudanças rápidas e ambientes competitivos. Trata-se de um planejamento, uma ferramenta de gerenciamento estratégico, em um nível de complexidade que se situa entre uma versão mais complexa (plano de negócios) e um modelo mais simples (que pode ser um pitch ou sumário executivo, modelo de plano de negócio resumido, para investidores). Ao elaborar o canvas de seu negócio o empreendedor formula um documento que lhe permite visualizar como gerar valor para o seu cliente e como ser remunerado por isso, investindo pouco tempo e sem entrar nos detalhes exigidos por um formato mais complexo como o plano de negócios. Esta ferramenta pode ser usado tanto por novos empreendimentos quanto por empresas já existentes, pois ao mesmo tempo em que pode ser entendido como um mapa dos principais itens que constituem uma empresa, o canvas pode ser também uma fonte de estratégias para lançamento de novos produtos, projetos ou serviços.
O Produto Mínimo Viável (MVP) ajuda os empreendedores a testarem o produto ou serviço e a sustentabilidade do negócio, otimizando o esforço de desenvolvimento, testando a atratividade da ideia e a interação com os clientes, ajudando o empreendedor a responder às seguintes perguntas: “meu público possui interesse no meu produto ou serviço?”, “com ele é possível monetizar (receber dinheiro)?”, “e se eu investir muito tempo no desenvolvimento do produto ou serviço e ninguém comprar?”.
Ao construir e testar um MVP o empreendedor pode, de forma rápida e econômica, testar se um determinado produto, serviço ou funcionalidade é viável, com uma quantidade mínima de esforço e tempo de desenvolvimento, ajudando no processo de aprender de forma rápida, poupando tempo e esforços, o que nos leva ao outro conceito apontado: o ciclo “construir–medir–aprender”, constituído por ferramentas para medir resultados semana a semana, dia a dia, aproveitando os feedbacks dos clientes/usuários.
A medição feita de forma sistemática permite que o empreendedor aprenda continuamente e, diante de resultados negativos, realize mudanças e teste novas hipóteses, no menor tempo possível, o que lhe permitirá criar produtos ou serviços realizando mudanças mais rápidas, mais cedo, com “foco no usuário/cliente”, focando em atributos que são valorizados pelo cliente, evitando desperdício de tempo e recursos.
Em síntese, o depoimento do empresário André Beleza (proprietário do Bistrôgonoffe) apenas validou o que já sabíamos empiricamente, ou seja, que podemos e devemos disponibilizar às microempresas e também aos microempreendedores individuais, independente da sua áreas de atuação, as ferramentas de gestão que foram desenvolvidas para acelerar o desenvolvimento de startups, mas que se aplicam a outras empresas de base tradicionais.
Desta forma, essas empresas serão estimuladas a se inspirarem e emularem os dois principais desafios de uma startup: ser repetível (o que significa ser capaz de entregar o mesmo produto novamente em escala potencialmente ilimitada, sem muitas customizações ou adaptações para cada cliente) e ser escalável (o que significa crescer cada vez mais, em receita e faturamento, mas com custos crescendo lentamente, o que permite uma margem cada vez maior de lucro).
José Amorim de Oliveira Jr. é analista do Sebrae Goiás
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