Goiânia – O Canal Brasil promoveu na última segunda-feira (10/3) a estreia do filme As Canções, de Eduardo Coutinho. Nessa obra, o cineasta, brutalmente assassinado por seu filho há pouco mais de um mês, expõe com a sensibilidade que lhe é ímpar as dores (que são maioria no filme) e alegrias (poucas) de viver, enaltecendo o fato de que muitas vezes uma música serve de moldura marcante para esses acontecimentos.
É impressionante como determinadas canções mais que estão ligadas, elas quase que verdadeiramente são momentos de nossa vida. Quando ouvimos uma música que foi importante em certa ocasião, principalmente quando de forma aleatória (no rádio, no supermercado, em uma festa…) a memória busca detalhes que, de tão fortes, parece estarmos novamente vivenciado aquela circunstância. Cheiros, clima, pensamentos… Tudo volta à mente em uma avalanche de sentimentos.
Pensando sobre minha própria experiência, é engraçado como não tenho uma única música para colocar no topo. Logo eu, que fico dias e dias sem ligar a televisão, mas surto se não tiver um som rolando. Não ter uma única para elencar é no mínimo curioso.
A música mais importante de minha vida é Lugar Nenhum dos Titãs. Foi a primeira, fora as infantis, que me fez pedir um disco de presente, que me impressionou e me fez querer ouvir mais. Mas ela não me emociona, não me arrebata como percebi nas pessoas que deram seu depoimento a Coutinho no filme de 2011. Sei da importância da música para minha própria história, mas é um reconhecimento racional do fato. Não é emocional.
Tem outras músicas que marcam relacionamentos e pessoas que passaram pela minha vida. De artistas que admiro em variados graus, desde a adoração ao mais completo desprezo. A lista tem Camisa de Vênus e Tribalistas, Beatles e Frejat, Jota Quest e Nirvana. Pode ver que a vida é dura em todos os sentidos…
O que realmente sinto quando ouço uma dessas músicas que me marcaram é quase um flashback. Parece que volto a ser aquele Pablo da adolescência, jovem adulto, da época de farra na faculdade, das incertezas após formado… Elas têm o poder de me recolocar em espírito em uma realidade que já foi minha e agora não me diz mais respeito.
Mas não é só a música que têm essa capacidade de nos deslocar no tempo. É uma característica dos sentidos de forma geral. Como sentir cheiro de café torrado e não lembrar da casa do avô na infância? Comer bolo de cenoura e não lembrar da casa da avó? Ir ao Serra Dourada e o cheiro da pamonha frita não me recolocar em um domingo de tarde da década de 1980 ao lado do meu pai em um jogo do Goiás? Impossível.
A diferença do poder da música é sua capacidade de lhe arrebatar quando menos esperamos. No meio do caótico trânsito da Marginal Botafogo congestionada, a rádio toca aquela canção que despedaça seu coração. Só mesmo muita concentração para não desabar sobre o volante e complicar ainda mais o chato cruzamento do viaduto que não termina nunca. Esse poder da música é único.