Goiânia – Ao longo dos séculos, doenças mentais estiveram associadas a uma série de coisas. Foram espíritos que invadiam nossos corpos, deuses que nos torturavam, encantamentos que nos controlavam. Foram corpos cujos líquidos estavam desequilibrados, alimentos exagerados ou ausentes, sangue contaminado por algo.
Todo tipo de explicações e todos os tipos de tratamentos. O enciclopedista médico Cornelius Celsus, de Roma, chegou a descrever práticas de cura das doenças mentais: dieta, sangria, drogas, terapias falantes, incubação em templos, exorcismo, encatamentos e amuletos, por um lado, e, por outro, ações ao nível de torturas (como inanição, sustos repentinos, agitação, apedrejamento e espancamento).
Ao longo das eras percebemos que os problemas não são meramente físicos ou do campo espiritual: o psiquismo é, na verdade, o elo entre espírito incondicionado e o corpo condicionado. E, portanto, é necessário que, perante doenças mentais, foquemos no tratamento integral da pessoa e não de uma das partes. Um ser “mentalmente saudável” é um ser cujas dimensões física, mental e espiritual encontram-se em diálogo e harmonia, ainda que nas situações mais difíceis.
Para isso, precisamos que os psicólogos, psiquiatras, psicoterapeutas estejam disponíveis em postura, linguagem e respeito. A ponte entre paciente e psicólogo só é possível num espaço de confiança, num acordo que vise interesse conjunto nos pensamentos, sentimentos, desejos e comportamentos do paciente. O que transforma o paciente é olhar que o vê completo e não dividido, é o olhar que enxerga no paciente a doença mas não um doente, que vê a possibilidade de cura no próprio paciente. O que cura é a relação que esse olhar cria.
Estima-se que existam no Brasil 23 milhões de pessoas que vivenciam algum tipo de transtorno psíquico. Algumas figuras públicas, ao longo dos anos, têm falado abertamente de suas histórias de sofrimento e vitória. Fernanda Lima conta que desenvolveu depressão após as críticas à sua primeira novela, “Bang Bang”. Roberto Carlos já expôs a importância de fazer terapia sistemática. Cássia Kiss expõe abertamente sobre sua bulimia e bipolaridade.
É importante que sejamos capazes de contarmos nossas histórias perante as doenças mentais. Porque ao contá-las, podemos assumir a verdade sobre nós e nos tornamos protagonistas dessas histórias.
Porque como protagonistas vemos nossos medos mas também nossas potencialidades.
Quando contamos a história, ajudamos aqueles que nunca passaram pelos vales do desespero da doença mental a perceber um pouco mais sobre o que é vencer os desafios da doença. Quando vemos um “Para Sempre Alice” ou “Um Sonho Possível”, ou lemos um livro desenvolvemos a empatia perante as dificuldades de nossos companheiros também humanos. Percebemos que doenças mentais não são frescura ou alguma coisinha que pode ser resolvida com discursos motivacionais: percebemos realmente que as dores do outro nos convocam a melhorar nosso nível de respeito pela diversidade.
Quando contamos a história, ajudamos aqueles que se sentem sozinhos e abandonados pela sociedade a perceber que não estão sozinhos. Seu sentimento de absurdez se pode tornar um sentimento de companheirismo, de ver que outros passaram pelo mesmo, que “essa dor não é só minha”, que nenhuma montanha é alta demais para ser escalada.
E quando meus pacientes me contam suas histórias, percebo o meu papel enquanto psicoterapeuta: ajuda-los a compreender que a forma de contar a história muda a forma de viver a vida. É possível deixar de ser Arlequina agredida e submissa pelo namorado, Carmen mal vista pelas pessoas, ou Renato Russo compondo suas músicas em depressão. Quando meus pacientes me contam suas histórias, sessão após sessão, reconectando-se ao seu íntimo e refletindo sobre minhas perguntas, percebem que podem ser Mulher Maravilha dona de si, a princesa Aïda respeitada por todos, ou o sofredor Cazuza que canta com bom humor. Quando contamos nossas histórias, mudamos as nossas histórias.
[Este texto foi escrito dentro da Campanha Janeiro Branco, porque a Psicoterapia deve estar ao alcance de todos!]
Sam Cyrous é psicólogo, psicoterapeuta de casais e família storyteller e curador do TEDxGoiânia