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As Ilusões Perdidas, por Luiz Rosemberg Filho

14.08.2017 - 08:55:22
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Goiânia – Se em Dois Casamentos (2014), penúltimo e belo longa de Luiz Rosemberg Filho, importantíssimo diretor brasileiro, houve um esboço por meio de um espaço claustrofóbico e uma teatralidade a serviço da linguagem cinematográfica, em Guerra do Paraguay (2016), seu recente trabalho, prossegue pelo mesmo viés, mas abre a lente da câmera, expandindo o espaço. O frescor que emana em seus últimos filmes remete a um outro grande expoente do cinema brasileiro: Júlio Bressane. As obsessões por galgar novos patamares alavancam suas carreiras e fazem com que, mesmo já veteranos, pareçam novatos insaciáveis pelo cinema.
 
Na película de Rosemberg, um soldado raso interpretado por Alexandre Dacosta retorna ao Brasil após a Guerra do Paraguai, no século XIX, e encontra no tempo presente duas irmãs, as últimas integrantes de uma trupe de teatro destroçadas pelos novos efeitos dos meios de comunicação e pela perenidade da transitoriedade. Em uma passagem emblemática de Bom Dia (1959), de Yasujiro Ozu, um dos personagens reflete que a disseminação da tv instituiria um país com 100 milhões de idiotas. E é este um eixo primordial para compreender os (des) caminhos pelos quais trilhou a sociedade brasileira influenciada pelos efeitos nefastos promovidos por esta caixa de pandora.
 
Os sonhos são desfeitos, as personagens das duas irmãs vivem em cacos, e a amargura impera, sobretudo, quando elas perdem a mãe vitimada pela fome que as aflige. A mais velha, interpretada por Patrícia Niedermeir em atuação magistral, é consciente de sua posição, forte, culta, imbuída de valores que resistem aos discursos prontos, ignóbeis e que atendem a interesses escusos, enquanto a mais nova padece de problemas mentais e representa a pureza.
 
O interesse é pela beleza, pela liberdade, pelo pensamento em vez de um discurso enviesado como bem dito por ela. A resistência é onipresente em seus atos, em cada palavra entoada representando um ensaio sobre a lucidez perante as questões intrínsecas às mazelas sociais do país remete a Mizoguchi no tocante aos malefícios advindos de uma sociedade cujo ditame principal é norteado pela força do capital, uma vez que uma minoria detém as riquezas e os meios de comunicação aniquilam a subjetividade e a multiplicidade peculiar a cada indivíduo, promovendo uma padronização rasteira e cada vez mais alienante.
 
O soldado é a personificação do vassalo, da ignorância em seu cume, totalmente absorto em ideias abjetas, alienado pela propaganda e pelo marketing que norteiam e condicionam sua mente a um esvaziamento de pensamento, mas doutrinado ao bel-prazer de poderosos que pouco se importam com a humanidade, com seus desejos pulsantes, mas cujo escopo primordial é o de padronizar, controlar, tratar as pessoas como um rebanho, a fim de destronar a posição do indivíduo enquanto agente cuja tônica é o pensamento livre das amarras perpetradas por uma parcela que insiste em dominar, utilizar-se de seu poder para massificar um discurso pífio e raso, mas comprado por muitas pessoas, infelizmente.
 
A riqueza do longa e as múltiplas camadas de interpretação promovem uma obra singular de um poder descomunal, tanto de ideias, textos ou subtextos, aliada à composição visual, de uma fotografia em preto e branco que salta aos olhos com uma beleza formidável, corroborando a ausência de luz nestes tempos tão sombrios. Não há fagulha de esperança, mas tão, somente, a desesperança realçada pelo corte que encerra a participação das personagens e insere imagens de arquivo por meio de uma explosão na qual a violência irrompe nas mais recônditas localidades do mundo. Um retrato nu e cru de toda a obscenidade que decorre da guerra e dos comportamentos mais execráveis da raça humana. Se as ilusões foram perdidas na película de Rosemberg, seu cinema pulsante é repleto de fé e representa um alento.
 
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por Declieux Crispim

*Declieux Crispim é jornalista, cinéfilo inveterado, apreciador de música de qualidade e tudo o que se relaciona à arte.

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