Terminei ontem de ler o livro Meus Problemas com as Mulheres do quadrinista Robert Crumb, publicado pela Conrad em 2010, mesma editora que colocou os outros livros do cara que li no mercado brasileiro. A diferença desse último é o aspecto perturbador que Crumb nos transmite ao longo das páginas. Todas suas taras sexuais são colocadas em público em uma transparência e honestidade constrangedoras. As histórias são como um divã onde todas suas dificuldades e perversões relacionadas ao sexo feminino vêm na cara do leitor com veemência assustadora.

(Foto: reprodução/Conrad)
Para quem não sabe, Robert Crumb é um tiozão antissocial que atualmente mora no interior da França junto de sua esposa Aline Kominsky. Ela também é quadrinista e eles escrevem histórias sobre sua vida íntima a quatro mãos que, no Brasil, são publicadas sem periodicidade certa pela revista Piauí. Antes de se enfurnar no sul da França, Crumb, nascido em 1943 na Filadélfia, ficou conhecido como ícone do quadrinho underground na cena hippie de São Francisco do final dos anos 60. Ele capitaneou o gibi Zap Comix que lançou gente do calibre de S. Clay Wilson, Rick Griffin, Robert Williams, Manuel Spain Rodriguez, Victor Moscoso, Gilbert Shelton e Paul Mavrides. Só a nata da insanidade.
Não sou neófito na obra de Crumb. Esse foi o sexto livro que li do cara. Sei do que ele é capaz. Contudo, nessa coletânea de histórias publicadas entre 1964 e 1991 e compiladas em um único volume no Brasil, o aspecto divã surpreende. A impressão que fica é que o autor usou de sua obra para tentar amansar todos os demônios sexuais que habitam sua existência. As mulheres que deixou passar por conta da ingenuidade juvenil, a dificuldade de adolescer com o início do furor sexual e conciliar isso com a culpa católica, os casos extraconjugais, a forma como assumidamente tratou várias mulheres como objeto sexual, as tretas de seus casamentos… Tudo isso vem a público de forma franca e genialmente divertida. O grau de exposição é tamanho que, pelo livro, ele coloca o corpo de mulher que prefere, algumas taras que conseguiu realizar e até dá para inferir qual sua posição sexual preferida, tamanhas vezes com que a mesma é retratada na obra com diversas garotas. Isso sim é que é fazer da vida um livro aberto.
Se você ainda não conhece o trabalho de Crumb, meu velho, está perdendo tempo. O cara é ganhador do Eisner Award, premiação gigante do mundo dos quadrinhos, e esteve em terras brasileiras em 2010, como convidado da Flip em Paraty. Na ocasião, dividiu uma mesa com Gilbert Shelton que, como já disse anteriormente, é outra mente insana desse universo dos gibis e criador dos lendários Freak Brothers (outra boa dica para você ir atrás e conhecer). Não gosto de ler quadrinhos pelo computador. Sou old school e fico no papel mesmo. Mas sei que nem todos são conservadores e atrasados como eu. A internet deve estar cheia dos trabalhos do Crumb por aí. Não deixe de ler Meus Problemas com as Mulheres. A capa do livro já exala o teor lascivo da obra que, tenho certeza, você também vai gostar.