Eu juro que eu tento. Meu esforço é descomunal para ser um daqueles cidadãos exemplares, de bigode aparado e que inspiram confiança na vizinhança. Um cara ordeiro, que cuida do jardim, passeia com o cachorro no final do dia e que tem como único vício o café coado pela esposa.
Mas não tem jeito. Eu tenho um dom inacreditável para fazer tudo errado. Quem nasceu para ser Homer Simpson nunca será Ned Flanders. E eu já tenho idade suficiente para saber disso e não mais me iludir. O problema é a angústia que vivo, o eterno conflito entre fazer o que me dá prazer e o que a prudência recomenda. Aquele eterno debate que os desenhos animados caracterizam como o diabinho e o anjinho, cada um em uma orelha lhe aconselhando. Os mais estudiosos sabem que se trata do embate entre superego e id mediado pelo ego. Dá tudo na mesma. O lance é essa divisão que internamente lhe consome.
As redes sociais são um antro de perdição nesse sentido. Você quer ser responsável, pagar as contas em dia, nunca cair no limite do cheque especial. Você quer comer de forma mais saudável, beber menos e fazer sua atividade física diária. Mas o inferno está ali para lhe tentar. E eu nunca fui um cara de dizer muito não para a tentação.
Você sabe que precisa trocar de geladeira, pois a qualquer momento a sua vai entregar os pontos. Mas os caras ficam postando promoção de passagem aérea para os destinos mais legais do mundo no Instagram. Aí você encontra uma dessas ofertas que custam metade da geladeira e não se controla. Lá se vai a geladeira em troca de uma viagem que você nem sabe como vai negociar as folgas no trabalho. Tudo bem, uma operadora de cartão de crédito já me ensinou que a vida é agora.
Você sabe que está bebendo demais em época de Copa do Mundo. Você sabe que precisa cultivar hábitos mais saudáveis e dar um gás no trabalho que está acumulando do computador. Mas os caras vão e lhe mandam pelo Whatsapp a foto da garrafa de vinho e avisam que estão assistindo o grande clássico entre Japão e Grécia. Você que não é de negar fogo e tem uma queda particular por jogo ruim, vai para a casa do vizinho entornar vinho, conversar fiado e ver partida de futebol vagabunda. Afinal, outra operadora também me disse que isso não tem preço.
Toda vez que vejo aqueles economistas engravatados na televisão me aconselhando a economizar, evitar gastos por impulso e fazer uma poupança, fico me perguntando se eles são humanos mesmo. Acho que são apenas robôs que têm como intuito maior jogar na sua cara o quanto você é um desprezível. Toda vez que vem um desses geração saúde me dizer para pegar leve na gordura e no álcool, fico pensando que a pessoa só pode ser infeliz. Não é possível estar bem consigo mesmo fazendo o que ela recomenda.
Sei que eles estão perdendo tempo comigo. Pau que nasce torto nunca se endireita. Mas eles conseguem colocar uma pulga atrás da orelha. O problema é que, vira-lata que sou, dou uma bela coçada, mando a pulga para longe e mando descer outra garrafa. Na hora da conta, passo no cartão de crédito. Por que isso não tem preço e a vida é agora.