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Bancas de revista: o fim de uma era?

16.02.2019 - 08:10:00
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Goiânia – Ninguém precisa recorrer a dados estatísticos para perceber que leitura não é o forte do brasileiro. Existem maneiras indiretas que podem aferir isso de maneira clara e inequívoca. O resultado das últimas eleições presidenciais é só uma delas. Das mais contundentes, óbvio.
 
Há tempos acompanho atenciosamente outro fenômeno que diz respeito a este descaso com o fundamental hábito de ler: o progressivo desaparecimento das bancas de revista. No caso específico de Goiânia, a coisa é dramática. 
 
Tenho uma longa e afetuosa relação com as bancas. Antes de ser alfabetizado, morava no Setor Coimbra, próximo à Praça Walter Santos. Aos finais de tarde, meus pais me levavam a um boteco ali por perto. Lá, tomavam sua cervejinha e comíamos algo. No caminho de volta, passávamos por um jornaleiro e, mesmo sem saber ler, meus velhos (àquela altura bem mais jovens do que eu sou hoje) me deixavam escolher um gibi. Todos os dias.
 
Ainda tenho gravado na retina as capas das revistas, sua disposição na banca. Uma explosão de cores que calou fundo em mim o gigantesco amor que tenho pela leitura (em geral) e pelas histórias em quadrinhos (em particular). Meus pais estavam longe de ser intelectuais. Mas sabiam a importância da leitura na formação dos indivíduos, e de seu impacto na sociedade. Não cabe dentro de mim a eterna gratidão por terem me oferecido tamanho patrimônio – que também é fonte inesgotável de prazer.
 
Anos mais tarde, nos mudamos para o Centro. Me tornei um legítimo pinto no lixo, ciscando cultura naquele maravilhoso labirinto de bancas incrustradas no manto de Nossa Senhora. Para mim, é exatamente isso que significa uma banca de revista: um democrático oásis de cultura na selva de pedra. Ao alcance de todos. Uma imagem recorrente em minhas lembranças é das pessoas enfileiradas nas laterais das bancas, lendo à distância os jornais que não podiam comprar. 
 
Conhecia todos os jornaleiros. Fiz amizades duradouras com vários deles, bem como com outros fregueses tão assíduos quanto eu. Cheguei a trabalhar – por um curto, mas glorioso período – em uma banca de revista. Salário pago em gibis, claro.  
 
Com a grana curta, tinha minhas estratégias. Ia para uma banca e começava a ler, ali mesmo, uma história. Quando o dono começava a fazer cara feia, caminhava para a banca seguinte e continuava a leitura. Seguia nessa peregrinação até fechar o gibi. 
 
A Goiás era o paraíso. Em seus áureos tempos, algumas das melhores bancas de Goiânia se enfileiravam dos dois lados da avenida. Quadrinhos, revistas semanais, magazines especializados em música, cinema, artes. Antológicas coleções em discos de vinil e, posteriormente, em CD. Filmes. Palavras cruzadas. Numa era pré-internet, gigantescas seções dedicadas ao onanismo. Os principais jornais do Brasil. Ciência, religião, futebol. Cultura, meu chapa. Cultura. 
 
A banca em frente aos Correios, na Praça Cívica, era a mais completa. Uma vez por semana, iam até São Paulo buscar revistas importadas. Disputávamos a tapa os comic books que chegavam todas as quintas-feiras. Ou seriam terças – ou ainda quartas? A memória começa a falhar…
 
Hoje, a outrora gloriosa banca dos Correios vive basicamente de vender apostilas para concursos. Descendo a Avenida Goiás, a coisa fica ainda mais melancólica. Bancas vazias, com pouquíssimos produtos em suas prateleiras. Decadência a olhos vistos. Na resistência, como se nada tivesse acontecido, só a Banca Três Irmãos, situada entre as ruas 4 e 5. Mas é muito pouco, diante da exuberância de um passado não tão distante.
 
Um pouco da responsabilidade disso tudo eu coloco sobre os ombros do próprio mercado editorial brasileiro. Monopólio e cartelização jamais deram bons resultados. Veja – literalmente – a situação da Editora Abril e tire suas próprias conclusões. 
 
Não deixa de ser simbólico o fato de que muitas bancas sequer continuam trabalhando com revistas e jornais. Suas mercadorias passaram a ser exclusivamente produtos para celular, tais como capas protetoras e carregadores. Num momento em que a imaginação popular parece ter sido sequestrada pelas telas da telefonia móvel, não poderia haver retrato mais preciso. 
 
Sou de uma época em que todo mundo que sabia ler, lia. Nos coletivos – invariavelmente lotados – era cena corriqueira ver trabalhadores da construção civil voltando para casa com um bolsilivro, ou mesmo um gibi do Tex, em mãos. Tudo comprado ao preço de uma carteira de cigarros na banca mais próxima do ponto de ônibus. Agora, tudo o que restou foram carcaças vazias, tragadas por memes e fakenews que se proliferam como câncer em metástase através de nossos onipresentes dispositivos móveis. Mais deprimente, impossível.
 
Me recordo do meu pai, que gostava de ir diariamente à banca do Seu João – na esquina da Goiás com a Paranaíba – comprar seu jornal. Eu dizia: “Pô, pai, por que você não assina o jornal? É mais barato e ainda entregam na sua casa.” Ao que ele me respondia: “Mas aí a banca fecha. E eu gosto de ir lá bater um papo.”
 
A banca do Seu João não existe mais. Parece ser o destino de todas as outras. Mas enquanto eu puder contribuir para que este momento derradeiro não chegue, estarei por ali, entrando em qualquer banca de revista que surgir pelo caminho.    
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por Márcio Jr.

*Márcio Mário da Paixão Júnior é produtor cultural, mestre em Comunicação pela UnB e doutorando em Arte e Cultura Visual pela UFG. Foi sócio-fundador da Monstro Discos, MMarte Produções e Escola Goiana de Desenho Animado.

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