Jales Naves
Especial para A Redação
Goiânia- De origem pobre e pais analfabetos, Júlio Resplande de Araújo construiu uma trajetória invejável: transitou nos três Poderes – Judiciário, Executivo e Legislativo – com a mesma competência e zelo e, sobretudo, com postura democrática. Foi desembargador em Goiás e, pelo Tocantins, secretário de Estado da Segurança Pública e deputado estadual. Nesta sexta-feira (1º/12), às 16h, no Tribunal de Justiça do Estado de Goiás, será lançada a sua biografia, assinada pelo jornalista Luiz de Aquino e pela poeta Chris Resplande.
Sua história – conforme a filha, coautora – “não é a de um santo e sua trajetória, como a de todos, contém atribulações, falhas e fraquezas. Mas o que a torna tão especial são as atitudes do homem público nas relações em sociedade”. Como acrescenta o advogado Antônio Lucas Neto. “Com uma simplicidade franciscana, muito conhecimento jurídico e vasto senso de pragmatismo, inaugurou um estilo diferenciado de atuação do Poder Judiciário”, referindo-se à sua passagem como Juiz de Direito em Rio Verde.
“A vida de um homem é sempre maior que a sua biografia. Há nuances, há caminhos, há equívocos e angústias a que só o próprio biografado tem acesso. E há uma auréola de difícil captação e quase impossível transposição para uma narrativa”, disse o poeta e desembargador Itaney Campos no prefácio do livro.
De acordo com Chris Resplande, ele viveu uma saga até se formar em Direito em Goiânia, cidade onde chegou aos 18 anos, apenas com o ensino fundamental concluído. “Talvez por isso tenha tão arraigado o senso do dever e do trabalho”, afirmou, para completar: “São também sagrados a fé, a família e a solidariedade com os necessitados”.
Em sua época de magistrado não existiam as Varas de Assistência Judiciária nem as Defensorias Públicas. “Sabedor da dificuldade que o pobre enfrenta, incentivava advogados a assumirem suas causas gratuitamente. Aos domingos, após a missa, levava a Eucaristia à casa de enfermos e não raro ia à cadeia pública visitar os detentos. Conversava com cada um, checava como estavam as condições de higiene, o que me remonta à passagem do Evangelho – ‘tive fome e me destes de comer, estive preso e me visitastes’”.
A homenagem é “uma justa celebração à vida do grande humanista Júlio Resplande – de quem tenho a honra de ser filha”. Ele nasceu em 1940 em Tocantinópolis, hoje Estado do Tocantins, uma cidade que era um amontoado de casebres à beira do rio Tocantins, na divisa com o Maranhão.
De acordo com o juiz de Direito Epaminondas Miranda da Rocha, ele “sobressaiu-se em razão do elevado saber jurídico que sempre possuiu, elevado senso de justiça, disposição imensurável para o trabalho, firmeza na prática e execução de seus atos, somados à sua simplicidade, seu humanismo no trato de seus jurisdicionados, principalmente para com aqueles menos favorecidos e, finalmente, por sua religiosidade”.
Atuou no Legislativo estadual, elegendo-se Deputado em 1998. “Com a sua admirável oratória, sua capacidade de argumentação e sua grande experiência de vida, trouxe debates importantes para a Assembléia Legislativa, em várias áreas”, conta a então deputada Josi Nunes, que, ao lado de Júlio Resplande, compunha toda a oposição ao governo, que contava com 22 parlamentares aliados em uma Casa com 24 deputados.
Ele foi também Secretário de Estado da Cidadania e Justiça, quando recriou as Coordenadorias de Direitos Humanos e de Sistema Penitenciário, as Superintendências de Defensoria Pública e de Direitos do Consumidor.
Na construção da narrativa biográfica, retratos do desembargador Júlio Resplande são desenhados por amigos de infância, por colegas da magistratura, antigos colaboradores e amigos. “Depoimentos que formam um belo esboço de sua personalidade magnânima e idealista”, relatou a filha. Nos últimos anos, “percebendo a fragilidade da idade e da memória, impôs-se um autoexílio e mesmo na enfermidade se mantém sereno, tranquilo e sem súplicas. Ele fez de sua vida o que sempre mencionava nos seus discursos, citando São Paulo: combateu sempre o bom combate”.