Dizer que a internet muda cada vez mais o comportamento, ou pelo menos os hábitos, das pessoas é, para usar uma expressão do tempo em que telefone celular era coisa de ficção científica, chover no molhado. Mas o cruzamento entre dados recentemente divulgados revela que este impacto já é possível de ser mensurado. À medida que cada vez mais gente tem acesso à rede mundial, maior é o esvaziamento de outros suportes de informação e entretenimento.
Despertou muita discussão a constatação de que a leitura perdeu espaço no cotidiano do brasileiro desde 2007. No período, o porcentual de leitores recuou de 36% para 24% da população. Ler ocupava, em 2011, o sétimo lugar no ranking das atividades preferidas dos entrevistados pelo estudo Retratos do Brasil, promovido pelo Instituto Pró-Leitura. No mesmo espaço de tempo, navegar pela internet passou a ser ação cotidiana para 24% dos brasileiros (em 2007, o índice era de 18%).
A mesma pesquisa apurou que a televisão continua sendo a prioridade de 85% das pessoas. Contudo, observando-se outro levantamento, nem mesmo a telinha azulada pode se sentir livre da “ameaça” da internet. As medições de público da TV aberta revelam que, nos quatro primeiros meses de 2012, a audiência média das emissoras recuou 9% em relação ao mesmo período do ano passado.
Os analistas apontam vários fatores: a melhora da renda, que faz parte da população migrar para a TV fechada ou, simplesmente, sair de casa para gastar; a opção por outros equipamentos eletrônicos, como videogames e DVDs; entre outros. Aqui, cabe incluir outra informação: no meso período, o tempo gasto com a internet via equipamentos móveis (o chamado time spent), como celulares e tablets, subiu 25% na última década.
E é exatamente a rede móvel que hoje impulsiona esta fuga das plataformas tradicionais de consumo de informações. A última pesquisa do Ibope Nielsen Online revela que o Brasil já é o sétimo maior mercado de internet do mundo, com mais de 79 milhões de pessoas com acesso à web. Boa parte desses acessos é feita por meio de smartphones.
Segundo o ConsumerLab, o laboratório de pesquisas da Ericsson, 40% dos donos de celulares inteligentes usam o equipamento para navegar na internet. A consultoria IDC colabora para dar mais pistas do que isso significará em curto espaço de tempo: ano passado, foram vendidos 9 milhões de smartphones no Brasil e a estimativa é que mais 15,4 milhões de unidades saiam das lojas até o fim de 2012.
Os números (cansativos, admito) confirmam claramente que a mudança já ocorreu. Tanto que os produtores de conteúdo correm para se adaptar à nova realidade. No ramo de livros, a movimentação é grande. Segundo o colunista Lauro Jardim, da Revista Veja, a iBookstore, a loja de venda de livros da Apple, chega ao Brasil ainda em maio.
A informação tem tudo para ser quente, já que recentemente o consumidor brasileiro passou a ter acesso a filmes e músicas no iTunes e a jogos na App Store. Outro gigante do setor, a Amazon, também se prepara para abrir sua loja virtual verde-amarela ainda este ano. Faltam alguns acertos sobre remuneração com as editoras. Quanto ao setor da TV aberta, as empresas parecem que ainda não reagiram com a mesma intensidade. Mas, com certeza, esse descanso em berço esplêndido não deve continuar por muito tempo.