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Brazilian x European Way of life

12.01.2012 - 21:57:00
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Desde que cheguei em Bragança, desacelerei. Claro, é uma cidade de 30 mil habitantes, onde tudo se faz a pé: ir para faculdade, supermercado, balada, lanchonete. Já vi por aí um ou outro ônibus, sempre carregando idosos ou crianças. Bom, no mais, não sei mais o que é trânsito e posso atravessar faixa de pedestres de olho fechado, sempre param a metros de distância. Se precisar de um supermercado, tenho que ficar esperta porque depois das 20h não encontro mais nenhum aberto. E se tiver fome de madrugada e não tiver nada em casa, paciência. Espera o dia amanhecer.

Tudo abre, no mínimo, às 9 horas e fecha para almoço. Acho que só restaurante que não, no mais, tudo. Não existe Mc’Donalds por aqui e as pessoas se encontram em cafés – não em points de fast food ou shopping center. Este é lugar para fazer compras mesmo, só. E nunca vi a praça de alimentações cheia. E aí que você acaba entrando no ritmo da cidade mas, mais do que isso, a essa altura do intercâmbio, estou crítica em relação ao nosso 'brazilian rushing way of life'. Por que, nessas andanças, descobri que esse ritmo não vem só de Bragança: é predominante na Europa. Até Paris, Madrid, Berlin, tudo funciona mais ou menos nesse ritmo menos frenético que vivemos. Foi aí que me dei conta do quanto somos influenciados pelo 'american way of life'.  

Já imaginou que absurdo não achar nada para comer depois da meia noite? Não existir supermercado 24hs? Aliás, como cresce esse mercado de 24hs no Brasil. E como não? Estamos trabalhando e estudando durante todo o tempo comercial. Quando vamos comer? Consumir? Eu não consigo imaginar tudo fechado para almoço no Brasil. É meu único tempo de “resolver a vida”. Pagar conta, comprar um CD virgem, devolver o DVD na locadora, comprar o presente de aniversário da amiga e até ir ao médico.

E aí que esse brazilian (american) way of life acaba indo além: nas ambições, nas ansiedades e uma infinda vontade de ter mais, agora, o quanto antes, pelo menos. Troféu de vencedor é entrar o quanto antes na universidade. Mais ainda, sair dela com pouca idade. 'Loser' é aquele que acabou trancando ou mudou de curso. Não importa a confusão e imaturidade que representa alguém prestar, ao mesmo tempo, para engenharia, enfermagem e design. Importa
ela entrar logo, formar em pouco tempo (e que absurdo perder um ano fazendo intercâmbio) e começa a ganhar dinheiro rápido.

O que sabe da vida alguém aos 16 anos de idade? O que viveu pra decidir o que vai fazer pelo resto da vida? Por isso admiro a forma como lidam com o futuro e juventude por aqui. Aos 18 ou 19 anos é que finalizam Ensino Médio, um ano mais tarde que a gente. E aí vão direto para universidade, né? Não, muitos tiram um ano para si: viajar, trabalhar, estudar coisas diferentes, se preparar para o portfólio que apresentarão à Universidade que pretendem entrar. Provavelmente alguém aos 19 ou 20 anos, depois de ter viajado bastante, trabalhado ou, no mínimo, ter vivido experiências diferentes fora das asas dos pais, tem mais maturidade para escolher o que quer da vida.

Se eu não tivesse entrado na universidade imediatamente depois do terceiro ano do Ensino Médio, poderia dizer que seria impossível fazer um vestibular um ano depois. Teria esquecido tudo. Mas a admissão em nossas universidades é um outro problema (grave, por sinal). A ambição aqui é sair da casa dos pais assim que terminam o Ensino Médio. Ter um flat sozinho ou dividir com amigos. Ninguém aqui entende como eu posso ainda morar com meus pais, ainda mais formada! E meu pai também não entende porque eu quero sair de casa morando na mesma cidade que ele. Acontece que, aqui, entra outro ponto muito importante que diferencia nossos ways of life, um mero problema de: transporte!

Parece simples, ou mesmo irrisório, não? Não. Como isso muda completamente a noção de liberdade, de escolhas, de modo de vida. Assim que a gente forma e começa a ganhar um dinheiro no Brasil, a prioridade (depois de pagar as próprias contas) é ter carro. Por necessidade ou por status. Aqui, de longe a prioridade é essa.

Primeiro, porque não é necessário. Liberdade é poder ir e vir para onde quiser, quando quiser. Linhas de metrô por todos os lados, que chegam rápido e na hora, ônibus funcionando pela madrugada, trens que ligam todas as cidades, países. Na Alemanha, se é estudante, paga-se 200 euros por semestre e tem-se o direito de se locomover em todo seu estado, de graça. Isso mesmo: imagine alguém que morasse em Goiânia, família em Itumbiara e pudesse todo fim de semana visitar seus pais de graça, de trem? Não perder a festa da avó porque não tem dinheiro para passagem?

Agora imaginem o impacto desse transporte de qualidade em tudo o mais: o trânsito fluindo melhor, o clima de estresse reduzido assim como a poluição. Poder sair para qualquer festa ou bar sem se preocupar com dirigir depois de ter bebido, correndo risco de acidentes ou de cair numa blitz. E eis aqui minha crítica à lei seca no Brasil: são rígidos, mas não oferecessem uma alternativa pública de qualidade. Táxi é para poucos. Liberdade: é isso que transporte público de alto nível significa.

E continuo minha crítica ao nosso way of life. Acredito que a gente se “adultize” muito rápido no Brasil. Formar logo, comprar logo um carro, apartamento, casar e arrumar filhos. Se não arrumou um pretendente ainda, acelere. Não há, necessariamente, essa ansiedade aqui. Claro, as vontades existem, e no fim são as mesmas. Estou falando de cobrança: pessoal, familiar e social. E, claro, há quem queira de verdade, no Brasil, seguir essa ordem por vontade, amor e não por cobrança. Aqui as pessoas admiram que, aos 22 anos, já seja formada e trabalhe. O que é muito comum por aí. No Brasil, há quem já esteja me cobrando um noivo.

Antes de terminar, mais uma última crítica. Na Alemanha, conversando com uma garota que faz Antropologia na Holanda, me disse. “Ouvi falar maravilhas do Brasil, só uma coisa ruim, queria saber se é verdade: vocês dão atenção demais para aparência não é? Ouvi falar que é o país que mais faz cirurgias plásticas”. Sim, é verdade. A gente dá mesmo mais importância para aparência. As pessoas aqui se vestem bem, tem estilo, mas não tem toda essa preocupação que temos, como com o culto ao corpo. Essa coisa de academia e salão de beleza, por exemplo. Uma breve e simples comparação fiz ao ver na timeline do meu Facebook todo mundo impecável no Ano Novo e Natal, enquanto na Alemanha as pessoas estavam de pantufas ou meias.  

Ter tempo de ver o novo filme do Almodóvar ou o Sherlock Holmes mesmo. Chegar do trabalho e ir ao teatro, ler um livro legal ou tocar um instrumento. Encontrar os amigos, jantar num lugar bacana, jogar futebol, correr. E se preparar para, no próximo verão, visitar um lugar diferente. Pequenos hábitos que uma não-correria proporciona. Para mim, isso é ser chique e onde a Europa me encantou. Não é gastar seus euros nas galerias Lafayette, Chanel ou Louis Vitton. Tenho orgulho de nossa cultura (acho mesmo que não exista igual), de nosso povo, alegria, riquezas, belezas e do crescimento que salta aos olhos do mundo todo. Mas podemos levar uma vida melhor ainda.

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por Nádia Junqueira

*Nádia Junqueira é jornalista e mestre em Filosofia Política (UFG).

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