Goiânia – Eu não vi nada da novela que terminou na sexta-feira. Mas nada mesmo. Sei que tinha um jogador na trama chamado Tufão. E só sei disso por que a torcida do Goiás apelidou nosso centroavante Walter assim. Não faço a mínima de qual ator interpretou o atleta. E não estou nem aí. Digo isso sem o orgulho intelectual que normalmente acompanha quem diz não gostar de novela. Na verdade, não assisto por que prefiro outras drogas.
Minha droga preferida é inegavelmente o futebol. É a que mais me diverte e dá prazer. E as drogas estão aí para isso: diversão e prazer. Sabemos perfeitamente que o descontrole ou exagero no uso de drogas causa sérios problemas. Por isso, é recomendável moderação. Ainda mais em drogas com alto poder viciante como novela e futebol. O problema do Brasil é que o número de adictos nessas duas drogas é bem acima do razoável.
Talvez seja necessário esclarecer aqui o que estou chamando de droga. Nesse texto, uso o termo droga para hobbies que não têm um apelo cultural, militante, social ou edificante explícito. Numa linguagem vulgar, poderia chamar essas atividades de “alienantes”, mas considero esse termo desgastado demais para o uso. Contudo, como não consigo pensar em nada mais elucidativo, fico com ele mesmo.
Como princípio, defendo que o cara que goza de plenas faculdades mentais deve ter autonomia para decidir o que coloca dentro de seu corpo sem prejudicar os outros. Seja maconha, uísque, cocaína, jogo do time do coração ou novela das oito. Cada um escolhe a forma que quer se divertir. E também escolhe as consequências do uso de cada substância. Toda festa tem uma conta para pagar e no uso de drogas isso não é diferente.
Como já faço uso de uma droga, o futebol, um pouco acima do recomendável, entrar de cabeça em outra droga pesada como novela não seria muito inteligente. E se você é viciado tanto em futebol quanto em novela, bem, preciso dizer que no meu entender você tem um problema sério para resolver. Mas se você acha que não, sem erro. Não estou aqui para ditar regras.
Acredito no ideal grego da temperança. Nem tanto ao mar e nem tanto ao sertão. O caminho do meio costuma ser o mais apropriado. Ter seus momentos nas drogas é divertido, mas também é necessário estabelecer uma relação com aquilo que edifica, que transforma, que proporciona estofo. Um mundo só de Joyce seria insuportável. Um mundo só de Tufão seria paupérrimo. Tem a hora de cuidar da saúde e tem a hora de enfiar o pé na lama. Quem só cuida da saúde tem problemas tão sérios quanto quem só enfia o pé na lama. Saber dosar é fundamental.
O problema que observo é que normalmente quem faz a defesa passional de uma droga costuma ser usuário radical daquela e/ou contumaz de outras. Por exemplo, o cara que assiste todas novelas de todos os canais tem um problema, pois não lhe sobra tempo para outras atividades. Ou então o cara que acompanha uma novela, cinco seriados gringos, seu time do coração e gasta horas compartilhando fotinhas ridículas em redes sociais – são vários tipos de droga para uma única pessoa, um exagero.
Balancear as atividades é o melhor a fazer. É fácil? Claro que não! Batata frita seduz mais que salada. Mas não podemos deixar as verduras de lado e ir só na fritura. Nosso coração iria reclamar rápido. Da mesma forma que não podemos esquecer dos livros e ficar só na novela ou futebol. Nosso cérebro iria reclamar também.