Eliane de Carvalho
De Barcelona
Quem vem a Barcelona não deve deixar escapar um passeio a Cadaqués, a apenas 171 quilômetros da capital da Catalunha, no nordeste da Espanha. Esta antiga vila de pescadores, banhada pelo Mar Mediterrâneo e com 2.640 habitantes, é uma das praias mais bonitas da Costa Brava, com 200 quilômetros de extensão.
A estradinha íngreme que leva até lá mantém um certo isolamento da cidade. Além disso, o poder público e os moradores souberam preservar a arquitetura e paisagem originais, salpicadas de casinhas brancas, num cenário limpo da verticalização tão comum aos destinos turísticos mais concorridos. Esta regra também vale na Espanha, mas Cadaqués ficou imune e, por isso passear pela cidade é tão agradável.
Cadaqués é um lugar para caminhar, porque a circulação de carros é restrita no centro histórico. Mas isso não pressupõe nenhum grande esforço, já que os lugares de interesse, como bares, restaurantes, lojas e a Església de Santa María, estão bem próximos uns dos outros, além do que, o bom gosto do lugar é distração suficiente para o visitante.
A qualidade da gastronomia mediterrânea, famosa internacionalmente, também pode ser saboreada neste lugarejo, com uma grande variedades de saladas e frutos do mar.
Mas vamos ao que interessa: as praias! Aquelas menores, cercadas por verde, rocha e montanha, conhecidas como “calas”, são as que mais me encantam. Há praias de areia, como estamos mais acostumados no Brasil, mas muitas são de pedra. Não menos bonitas, mas incômodas para quem gosta de se deitar sobre uma canga na areia.
Esta informação é fácil de se obter nos hotéis e o melhor a fazer é alugar uma scooter na cidade e ir de praia em praia, em busca da que mais te agrade. O mar é limpo e de um azul intenso, mesmo no centro. No alto verão, como agora, prepare-se para temperaturas que rondam os 30 graus!
Inspiração de Dalí
Cadaqués também é surreal. O pintor espanhol Salvador Dalí e sua mulher, Gala, viveram ali dos anos 30 até 1982. No dia em que Gala morreu, Dalí abandonou a casa, deixou tudo como estava, até um quadro original inacabado, e nunca mais voltou.
Mas a luminosidade e a geografia da cidade já estavam presentes nas obras do artista e assim continuou. Na infância e na juventude, Dalí passou longas temporadas nesta praia, apesar de ter nascido em Figueres, que também está próxima. Chega a ser engraçado ver os donos de bares e restaurantes disputarem a preferência de Dalí. Onde o artista pisou, foi tirada uma foto, que hoje é estampada com orgulho.
A presença de Dalí deu visibilidade internacional à Cadaqués, e atraiu outros nomes de peso do mundo das artes, como Picasso, e rendeu a fama de St-Tropez espanhola nos anos 60.
A casa virou museu e foi mantida exatamente como quando era residência. A visita vale por muitas razões: a Casa-Museo está na baía de Portlligat, ao norte de Cadaqués, que por si só já vale o passeio.
Para conhecer um pouco da vida privada do casal e ver o cenário e os objetos de arte que inspiravam a Dalí, como por exemplo, uma cabeça de rinoceronte pendurada em uma parede; e um espelho colocado estrategicamente perto da cama de Dalí, que dividia o mesmo quarto que Gala, mas não a mesma cama, para que Dalí pudesse ver refletidos o mar e a luz do sol quando acordasse cada manhã.
Dalí e Gala compraram várias casinhas de pescadores e as fundiram numa só e o resultado é labiríntico. Capricharam nos jardins, pátios e piscina que são como galerias a céu aberto.
A visita é guiada e dura uns 40 minutos, mas é preciso reservar com antecedência através do site www.salvador-dali.org. Enrolem os bigodes e bom divertimento!
Eliane de Carvalho é jornalista brasileira radicada em Barcelona e mestre em Relações Internacionais.