Goiânia – Eu nem sabia que esse Caldas Country existia. Não é pose, não é arrogância, não é elitismo. É alienação mesmo. Passo completamente batido de assuntos que não são inerentes ao universo que me desperta interesse. Não sei nada sobre eventos de música sertaneja da mesma maneira que não sei nada sobre o campeonato venezuelano de beisebol. São assuntos que não me sensibilizam e, por isso, passo completamente ao largo de qualquer coisa que diga respeito a eles. Não tenho amigos que frequentam essas festas, não ouço as rádios que divulgam os shows, não presto atenção na mídia externa que faz a publicidade dos eventos. Só saquei a existência da festa depois de toda repercussão nas redes sociais. Meu amigo, que rock doido foi esse Caldas Country, hein…
Nem vou entrar na análise do cenário de caos e orgia que aparentemente foi a festa. Acho algumas abordagens moralistas, outras sensatas, muitas hipócritas. Mas isso não vem ao caso. Só quero comparar que os ambientes ditos “alternativos”, “underground” ou “rockers” que frequento não chegam sequer aos pés em matéria de hardcore perante as cenas que vi. O Caldas Country é a festa punk idealizada pelos Replicantes sem punk rock no som, é a materialização do clipe de Whiskey in the Jar do Metallica sem o a maravilhosa trilha sonora da banda ícone do thrash metal (escrita do termo corrigida pelo autor às 16h02, após observação dos comentários do texto), a encarnação do vídeo de (S)aint do Marilyn Manson sem cocaína na Bíblia. Ou seja, o que aconteceu no Caldas Country é a síntese de uma festa altamente rock, mas com música sertaneja.
Tem algo mais rock n’ roll do que transar ao ar livre, na frente de todo mundo? Em Woodstock a cena é idealizada, no Caldas Country difamada. Drogas por todos os lados? O rock anda mesmo cada vez mais coxinha. Fico imaginando alguém acendendo um baseado no show do Coldplay – esse ícone do chamado “novo rock” está aí lotando estádios e não me deixa mentir. O desrespeito à autoridade com Jim Morrison sendo preso por atentado ao pudor é glorioso, dançar em cima de viatura policial é vandalismo. Acho que nós que gostamos de rock precisamos reaprender a libertinagem raiz do estilo no Caldas Country.
E o engraçado é que no último festival de rock alternativo de Goiânia que fui, levei minhas duas filhas. O ambiente estava totalmente família. As garotas se divertiram horrores, dançaram, lancharam e voltaram cedo para a casa. Foi um festival de rock, mas poderia ter sido o Mutirama. Por outro lado, o Caldas Country definitivamente não é recomendável para menores. Tal qual os shows de nossos heróis do rock também não eram. Rock sem tensão sexual no ar não presta. No rock careta só se salva Frank Zappa. Todo rock que não tira onda com a autoridade deveria ouvir Dead Kennedys.
E até parece que foi a primeira vez que essa esbórnia rolou nas ruas de Caldas Novas. Pelo que sei, no famoso Carnaval da cidade das águas termais isso é rotineiro. Eu não aprovo o que aconteceu lá. Depredação, violência e desrespeito me enojam. Mas a diversão me seduz. E parece que a razão da indignação geral foi que a diversão da galera excedeu. Qual o motivo do escândalo? Acho que o mundinho das redes sociais está deixando todo mundo mais moralista nos posts, histérico nos comentários, hipócrita nos compartilhamentos e doentio nas práticas. Afinal, precisamos extravasar em algum ponto de nossas vidas.
O Caldas Country é muito mais rock n’ roll que você.