Logo

Can’t buy me love

14.11.2016 - 16:43:00
WhatsAppFacebookLinkedInX

 
Goiânia – Tirei o saldo da conta e lá estava: 36 centavos. Centavos, cara. Centavos! C E N T A V O S! Fiquei olhando para a tela do caixa eletrônico e não consegui conter risadas – de tristeza, de nervosismo, de desespero, não sei bem. O mais triste de tudo é que eu sou essa pessoa que, por motivos de força maior, tenho quatro contas em bancos diferentes. Porém, somando o saldo de todas elas, continuo sendo daqueles brasileiros com um poder de compra bastante limitado. Bastante mesmo (um eufemismo para pobre, sem dinheiro, quebrado, liso etc.).
 
Guardei o recibo no bolso e fui embora dali pensando em como é que todo mundo consegue ter e comprar esse tanto de coisa, e como é que eles conseguiram ser tão vencedores na vida. Porque não é possível que só eu não consiga. Pensei nas seguintes possibilidades – e riscando todas da minha vida.
1) Ter nascido em família rica (não mais possível).
2) Ter cônjuge rico (mais fácil nevar em Goiânia).
3) Herdar a fortuna da família (provavelmente, vou herdar dívidas).
4) Ganhar dinheiro, de fato, com a minha profissão (Hahahaha, no meu caso).
 
Fui subindo as escadas rolantes do shopping, pensando nisso tudo, e uma tristeza tomou conta de mim. Achei que uma comida japonesa iria me animar. Comida sempre pode melhorar o seu estado de espírito. Escolhi o restaurante por quilo e fui colocando os pedaços de peixe e yakissoba, enquanto eu pensava em alguma solução milagrosa para toda essa falta de dinheiro e perspectiva de crescimento. Botei o prato na balança. O preço: 43 reais! QUARENTA E TREIS REAIS, CARA! Fiquei imaginando que os pedaços de peixe vieram justamente do Japão em embalagens especiais, criadas na mais alta tecnologia japonesa, pois não era possível esse preço. Se fosse arroz com feijão, ia dar dez reais o prato!
 
Inconformado, porém, resignado com o meu destino, paguei com o cartão de crédito, pensando no dinheiro que eu nem tinha ainda (e que nem iria ver). Andei pela praça de alimentação procurando uma mesa, pensando que é justamente assim que a roda do capitalismo gira: você compra coisas com o dinheiro que você não tem e faz dívidas para a eternidade, enquanto trabalha para pagar essas coisas que você nem tinha como comprar em primeiro lugar. E eu fiquei lá, mergulhando os sashimis no molho, só lembrando do extrato da minha conta no meu bolso, a evidência da minha pobreza, enquanto eu comia a comida típica mais cara de todo o mundo. De repente, a comida ficou um pouco azeda.
 
Talvez o segredo seja realmente ser feliz com aquilo que o dinheiro não compra: amor, felicidade, amigos, laços afetivos de qualidade etc. Talvez aquele clichê de que coisas materiais não trazem felicidade seja verdade mesmo, e que nunca ficamos satisfeitos com o que temos. E, se pararmos para pensar, não precisamos de mais nada. Mas, de qualquer forma, ver apenas centavos na sua conta dificulta classificar sua vida como vencedora, mesmo que você tenha tudo aquilo que o dinheiro não compra.
 
André Campos Marçal é professor

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por André Campos Marçal
Postagens Relacionadas
José Israel
28.02.2026
Canetas emagrecedoras e pancreatite

O debate em torno das chamadas canetas emagrecedoras ganhou um novo e relevante capítulo com a divulgação, por parte da Anvisa, de dados sobre casos suspeitos de pancreatite e óbitos potencialmente relacionados ao uso desses medicamentos no Brasil. Embora os números ainda não permitam conclusões definitivas, eles desempenham um papel crucial ao acender um alerta […]

Mara Pessoni
28.02.2026
É possível solicitar um visto para os EUA apenas para assistir a um jogo do Brasil na Copa do Mundo?

É perfeitamente possível solicitar o visto americano para assistir a apenas um jogo da Copa do Mundo de 2026. Na verdade, grandes eventos esportivos são motivos comuns e legítimos para viagens de turismo. Como você já atua na área de imigração, sabe que o desafio não é a justificativa em si, mas a demonstração de […]

Roberta Muniz Elias
27.02.2026
Infância Sem Atalhos: Proteção Total

Diante da ampla repercussão pública nos últimos dias sobre o julgamento no TJ/MG, a proteção da dignidade sexual de crianças e adolescentes voltou a ocupar o centro do debate. Decisões judiciais que, de forma equivocada, tentaram relativizar a aplicação do art. 217-A do Código Penal – dispositivo que tipifica o estupro de vulnerável – suscitaram […]

Décio Gazzoni e Antônio Buainain
25.02.2026
O papel do engenheiro agrônomo na realidade contemporânea

O Acordo entre o Mercosul e a União Europeia significa um marco histórico nas trocas comerciais no mundo, pela amplitude de países, população e valores financeiros (PIB e trocas comerciais) envolvidos. É um exemplo acabado da realidade comercial contemporânea. Do ponto de vista da União Europeia, as vantagens apontam especialmente para uma abertura de mercado […]

Leonardo Ribeiro
24.02.2026
Quaresma: rumo ao deserto para escutar e viver

Com a graça de Deus iniciamos, unidos com a Igreja, o Tempo da Quaresma. Como todos os anos, neste período de quarenta dias, somos convidados a mergulhar com intensidade e coração aberto neste tempo propício de revisão de vida e conversão pessoal. A própria Liturgia da Quarta-Feira de Cinzas, que marca o início da Quaresma, […]

Ricardo Menegatto
17.02.2026
Prejuízos causados por eventos climáticos: quais são os direitos do consumidor?

Os alertas da Defesa Civil sobre tempestades severas tornaram-se parte da rotina de moradores de São Paulo e de diversas capitais brasileiras. Com eles, cresce também a apreensão quanto à possibilidade de quedas de energia elétrica e aos prejuízos que podem atingir residências, comércios e até a saúde de pessoas que dependem de equipamentos essenciais. […]

Carla Conti
14.02.2026
Educar com consciência planetária é um compromisso com a vida

A universidade é, historicamente, a casa do conhecimento. É nela que se formam profissionais de todas as áreas e onde se outorgam diplomas que autorizam a atuação no mundo. Mas esse gesto formal carrega uma responsabilidade que vai muito além da formação técnico-científica. Em um cenário marcado por crises ambientais, desigualdades sociais persistentes e pelo […]

Anna Carolina Cruz
13.02.2026
O tempo que não temos

Há dias em que a alma pede silêncio. Não o silêncio da ausência de barulho, mas o silêncio da consciência que desperta. Tenho pensado muito na forma como estamos vivendo. Corremos como se houvesse um incêndio permanente, como se cada mensagem ou e-mail não respondido fosse o fim do mundo, como se cada prazo fosse […]