Querido P.,
Li essa frase n’Os diários de Sylvia Plath (1950-1962) e me divertiu muito: “Ora, até parece que me importava com o que pensariam (claro que sim, e muito)”. Pensei imediatamente em você. Achei engraçada a ideia de que a escritora do meu livro preferido (“A Redoma de Vidro”, acho que pode te interessar) pudesse ser tão insegura quanto eu. É tão fácil esquecer que essas pessoas que admiramos são pessoas também e que nos atraem justamente por serem como nós, em certa medida. Escrevo diários desde a adolescência e sempre nutri um prazer secreto em imaginar que algum dia alguém leria meus relatos solitários e se identificaria. Tenho os cadernos guardados até hoje.
Espero que esteja tudo bem aí no Centro-Oeste! Não trago notícias muito mais animadoras que da última vez. Depois de melhorar um pouco, cheguei bem baixo, quase tão baixo quanto se pode chegar. Quem diria que realizar sonhos pode ser tão amargo e infeliz? A Avenida Corifeu segue bastante barulhenta, mas pelo menos consigo apreciar, pela falta, a poesia que foi Brasília na minha vida. Talvez consiga amar também os carros e motos sem escapamento algum dia, mas ainda não.
Estou um pouco cansada de me sentir perdida e triste. Você assistiu ao filme “Soul”? É bem bonito. Tem uma lição linda que teimo em não assimilar, pelo menos não agora. A das pequenas coisas. A dádiva de existir, simplesmente existir. Já me escorei bastante nessas pequenas alegrias, mas agora parece que não consigo fixá-las. É horrível saber e não saber uma coisa ao mesmo tempo. Saber que já passei por isso antes e que desta vez vou passar também, e sentir que não. Talvez nossos pais tenham mesmo falhado em nos preparar para a dor porque me recuso a aceitar que é essa a vida que devemos viver, mas ainda assim, aceito e me entrego de tal jeito a me tornar uma com a dor, uma massa sanguinolenta e sólida de pessimismo e incoerências.
Mas vai passar, não é? Em alguns momentos vou conseguir me separar da dor, talvez nem lembre que ela existe. Mas, enquanto todo mundo morre de uma doença para qual existe vacina, enquanto tento preencher algum buraco interior com coxinhas e doces, enquanto fico presa em casa acreditando que não sou mesmo boa em nada, bem, por enquanto, acredito que não. Em determinado momento n“A Redoma de Vidro”, Esther Greenwood começa a listar tudo que não sabe fazer e chega à conclusão de que é completamente inadequada, “como um cavalo de corridas em um mundo sem hipódromos”. Constantemente, corro meus dedos pela tela do celular e me sinto como Esther e Plath, desajustada em meio a uma multidão de pessoas especiais. Esse sentimento se intensifica quando me sinto incapaz de levantar da cama. Mas ei, pelo menos tem paredão toda semana e, de hora em hora, posso votar freneticamente pela saída de um participante do Big Brother – o que é bem mais do que posso fazer por mim ou pelo meu país hoje.
Não pensei que pudesse sentir saudade do céu, que deveria ser o mesmo para todos. Mas o céu aqui é tão sem graça perto daquele que se derramava sobre a cidade que me abrigou por 6 anos. Se fechar os olhos, posso ver as árvores da minha quadra se erguendo sobre mim. A luminosidade bonita do Sol traduzida pelas folhas. Posso imaginar que estou sozinha, em silêncio. Mas sei que o lugar não é o problema. “…onde quer que eu estivesse – fosse o convés de um navio, um café parisiense ou Bangcoc -, estaria sempre sob a mesma redoma de vidro, sendo lentamente cozida em meu próprio ar viciado.” Como Greenwood, sei que estarei onde estiver, não posso fugir da minha própria cabeça. Talvez amanhã o dia amanheça menos cinza e eu sinta esperança de novo. Talvez acredite novamente que, algum dia, uma jovem escritora perdida lerá meus diários e sentirá algum conforto em compartilhar comigo as dores do mundo. Sinto saudades de Brasília, mas passei pelo inferno antes de gostar de lá, então sei (e não sei) que algum dia poderei amar aqui também.
Talvez você goste de saber que decidimos chamar alguém para arrumar o sofá e o ralo, o que com certeza tornará os dias menos horríveis. Espero sua resposta.
Um abraço,
M.
*Manuela Costa é escritora e comunicóloga. Trabalha como assistente de produção na produtora brasiliense Forest Criações. É criadora do projeto Calcinha Bege, dedicado a discussões sobre a imagem corporal de mulheres no Instagram. É formada em Comunicação Social/Audiovisual pela UnB.