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Cielo, você não me decepcionou

08.08.2012 - 11:19:16
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Sintomático. É o primeiro adjetivo que me vem à mente para caracterizar a performance do Brasil nas Olimpíadas. A cada bronze ou não-vitória, não me decepciono. E a cada ouro, penso sentir uma alegria muito maior do que a de qualquer chinês, americano, inglês ou cubano, naturalmente. Porque nosso ouro (aliás, nem sei se devo conjugar na primeira pessoa do plural) é mais suado. Porque é mérito mais dos atletas e menos do país, dos governos, políticas públicas. Desses atletas que insistem, remam contra a maré e chegam às Olimpíadas com pouco ou parco patrocínio e incentivo. O mérito é individual e não da nação.

Ao contrário da maioria dos medalhistas, os brasileiros não são levados (levar, verbo que pressupõe existência de outro sujeito) para centros de treinamento assim que seu talento é identificado, quando há uma oportunidade. São eles que insistem e seguem esse caminho buscando espaços de crescimento. Com apoio de família, um professor aqui, outro técnico ali, que juntos vão buscando formas de Olimpíadas não representarem um simples sonho. Aqueles que acreditam que esporte é coisa séria. Que o momento da aula de educação física não é uma mera recreação, fácil de ser dispensada. Uma carreira profissional nessa área? Impensável para maioria dos pais de filhos com talento para o esporte.

A verdade é que toda vez que aparece o quadro de medalhas e aquelas velhas bandeiras conhecidas, eu me pergunto: por que não o Brasil? Um país que, como a maioria dos vencedores, o PIB vai muito bem, obrigado. Ou que como a China, tem crescido e se tornado cada vez mais potência econômica. Falta de dinheiro não é mais justificativa para poucas medalhas.

Por que não o Brasil, a ser vencedor, se como Estados Unidos e China, tem mais chances em ter melhores atletas do que vários outros países simplesmente por ter uma população maior? A chance em ter um supertalento é maior entre 100 pessoas do que entre 20, obviamente. Gente não nos falta. Talento, também não. Por quê, então?

Talento, temos. Muita gente, também. Dinheiro, temos. O que falta é a básica e difícil noção de ser conquistada de que, parafraseando nossos programas de governo, país rico, é país com esporte, educação e cultura. Estão aí os três pilares básicos e essenciais que fazem uma nação com N maiúscula e que, ainda, não recebem o investimento e a atenção necessárias por aqui.
São eles que farão do Brasil uma nação de verdade, um país que faz mais do que consumir muito e atrair investidores. Esse crescimento de nada adiantará, nunca será suficiente, nunca se sustentará enquanto esses três pilares não tiverem o status do Ministério da Fazenda.

Viver em Portugal em plena crise econômica me deu a clara noção de que nenhuma riqueza e estabilidade econômica são para sempre. Mas o que fica, quando a economia afunda, é o que o dinheiro pôde investir e comprar. Educação e cultura, por exemplo, são investimentos que duram e sobrevivem a uma crise. Isso significa que o Brasil ainda corre o sério risco de continuar miserável. Miserável em sua educação, em medalhas em olimpíadas.

Enquanto as verbas destinadas para Esporte e Cultura forem ridiculamente inferiores a outras áreas. Enquanto o salário do professor for o menor entre aqueles com nível superior (aventurem-se ver a lista de salários dos portais de transparência). Enquanto esporte e cultura forem tratados como mero lazer e hobby (lembro-me das escolas que dispensam alunos da educação física no Ensino Médio para estudar para vestibular). O Brasil vai correr o risco de ser miserável. E ser campeão em Olimpíadas, um sonho muito distante.

Esse quadro de medalhas é sintomático porque mostra, para o mundo todo, que o gigante pela própria natureza está crescendo. Mas ainda engatinha em muitas coisas. E não se tornou ainda tão grande como sua economia. Hoje, 111 dos 259 atletas brasileiros nas Olimpíadas de Londres recebem o bolsa-atleta. Uma política pública nova, recente, que ainda não contempla todos os atletas e não é da noite para o dia que esse incentivo mostrará impacto no desempenho dos atletas. E, ainda, é apenas uma das políticas de incentivo ao esporte: para aqueles que já conseguiram demonstrar que são profissionais e precisam de apoio. O incentivo deve começar bem cedo, quando o talento é identificado.   

O que deve mudar, em primeiro lugar, é a forma de pensar. Esporte deve deixar de ser primo pobre. Deve ter sua grandeza reconhecida, como era na Grécia que inventou as Olimpíadas. E com toda nossa criatividade e jeito alegre e leve de tocar assuntos banais e sérios, poderemos crescer, mudar e ser campeões. É assim que podemos vencer todos os desafios e ser, um dia, campeões em Olimpíadas. Porque disciplina é necessária, esporte é trabalho, mas podemos ser campeões com mais alegria e leveza que chineses ou americanos, por exemplo. Pelo simples jeito brasileiro de ser.  

Somos o sexto na economia mundial. Mas vivo para ver o dia em que seremos o sexto nas Olimpíadas. O sexto em menor taxa de analfabetismo. Sexto em maior índice de leitura e em produção de pesquisas. Até lá, continuarei a achar injusta a mídia que coloca “fracasso” e “decepção” em manchetes se referindo ao desempenho do Brasil em Olimpíadas. Até lá, continuarei achando que quem chegou em Londres já tem meu respeito. O mesmo que sinto quando vejo a turma da Etiópia e Jamaica nas disputas. Até lá, Cielo, você não vai me decepcionar.   

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por Nádia Junqueira

*Nádia Junqueira é jornalista e mestre em Filosofia Política (UFG).

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