Algumas coisas me dão uma preguiça enorme. Uma delas é esse alarde exagerado sobre o livro “Cinquenta tons de cinza”, da britânica E.L. James. Sério mesmo que antes desse romance ninguém havia percebido que as mulheres gostam de sexo? O fato de nos excitarmos com contos eróticos é uma surpresa tão grande assim?
Praticamente todos os jornais e revistas trazem manchetes retratando o “fenômeno” do livro, que tornou-se febre de vendas (mais de 40 milhões de exemplares no mundo inteiro). Entrevistam sexólogos, psicólogos, sociólogos e uma série de outros profissionais para tentar descobrir o “segredo” do sucesso da obra.
Mas existe segredo? Sempre achei que o fato de mulheres gostarem de ler, falar sobre e fazer sexo fosse óbvio. Não acredito que nenhuma delas pratique pompoarismo somente para fortalecer a pélvis, compre produtos em sex shops para enfeitar a estante ou use calcinhas fio dental por economia de tecido.
Novidade, na minha opinião, é que o mercado editorial e a mídia só tenham se dado conta de que o público feminino se interessa por esse tema agora. Descobriram a pólvora e agora começam a forçar uma barra que não existe, mostrando a “revolução das mulheres liberadas”, “a nova mulher do século 21”.
Que revolução, que nada. Se aconteceu alguma foi no século passado, na década de 60, quando lançaram a pílula anticoncepcional e deram à mulher o direito de transar sem engravidar. Fora isso, muito pouca coisa mudou. Quer um exemplo? O tal livro foi classificado como mommy porn, algo como “pornô para mamães”.
Falando sério: pornô para mamães? Que diabos é isso? É uma mulher que se excita com fraldas e mamadeiras? Como alguma coisa pode ser “mais ou menos” erótica? Ok, o tal Christian Grey em vários momentos se comporta como príncipe encantado, pois é educado, sedutor, paciente, mas o que ele faz mesmo é Anastasia Steele gemer de prazer com seu sadomasoquismo! É de sexo puro que estamos falando.
O problema é que “mulheres direitas” não podem gostar de algo puramente sexual. Colocaram na nossa cabeça que se não houver um romance açucarado no meio a coisa não vale a pena. Nos ensinaram que relacionamentos baseados apenas em sexo são medíocres. “Apenas”? Você consegue a química perfeita com aquela pessoa, goza como nunca gozou antes e isso é pouco?
Me dá aflição ver todas essas reportagens sobre “Cinquenta tons de cinza” tentando vender um modelo de comportamento que sabidamente as mulheres não adotam. Algumas poucas têm coragem de fazer valer seu direito ao prazer sexual sem amarras, mas a maioria ainda se recolhe, preocupada com o julgamento social.
No escurinho do quarto, lendo o livro à noite, elas vão ao delírio com as aventuras do casal sadomaso. Isso não significa, porém, que no dia seguinte vão querer colocar as fantasias em prática nem se render a uma noite de sexo com alguém com quem não tenham uma ligação afetiva. A imaginação viaja, o corpo não.
Muitos outros livros eróticos ainda terão de ser lançados e lidos até que uma mulher que decida ir para cama com quem quiser, quantas vezes quiser, não seja considerada uma vadia ou qualquer outro adjetivo tão lisonjeiro quanto. Por enquanto, a maior parte do público feminino é mero voyeur do que se passa na cama alheia.
Nas rodas femininas, os papos sobre o livro oscilam entre a alegria de poder ler algo excitante e a decepção de saber que muito do que está lá ficará preso à própria obra. O simples fato de adquirir um exemplar é considerado uma ousadia por várias mulheres, o que por si só já dá uma dimensão das barreiras a serem vencidas.
Sexo é vida, como bem diz o slogan de um grupo especializado em tratamento de impotência masculina. Está no nosso cotidiano mais básico. Assim como trabalham, assistem à TV, comem e dormem, as pessoas fazem sexo – e geralmente gostam muito. Quando digo “pessoas”, refiro-me a homens e mulheres. Notícia mesmo será o dia em que essa ressalva não for mais necessária.