Raisa Ramos
Com 45 anos de carreira, Maria Bethânia nunca havia dedicado um show inteiramente às músicas de Chico Buarque antes, nem quando, em 1975, gravou um disco ao vivo com o compositor – um álbum belíssimo, diga-se de passagem, que inclui faixas assinadas por Paulinho da Viola, Caetano Veloso e outros músicos. A novidade e idealização desse show é responsabilidade do Circuito Cultural Banco do Brasil, que desde 1999 investe nas mais variadas formas de manifestações artísticas. Ao todo, os números do Circuito somam 121 ações – de shows de música popular e instrumental a exposições, oficinas, palestras, mostras de vídeos e espetáculos de teatro e dança –, 32 cidades e um público de mais de 1,25 milhão de pessoas.
O ineditismo de repertório não fica apenas a cargo da diva Bethânia. A filha de Dona Canô divide o palco, em dias sempre consecutivos, com Sandy cantando Michael Jackson e Lulu Santos interpretando Roberto e Erasmo Carlos. Misturas, no mínimo, curiosas, que devem atrair bastantes espectadores por conta disso. Esta primeira série de shows começa em Curitiba (Teatro Guaíra, de 18 a 20 de novembro) e depois segue para São Paulo (Via Funchal, de 21 a 23 de novembro), Ribeirão Preto (Teatro Pedro II, de 6 a 8 de dezembro), Goiânia (Teatro Rio Vermelho, de 16 a 18 de dezembro) e Recife (Teatro Guararapes, de 18 a 20 de janeiro). A ideia é, a cada ano, ter grandes artistas da música brasileira abordando repertório de um grande compositor.
Cabelos ao vento
Quando se fala em Maria Bethânia, a primeira coisa que vem a cabeça de qualquer pessoa é a imagem da senhora de longas e volumosas madeixas grisalhas, que denunciam a idade que o rosto e o corpinho de manequim 36 não mostram. Ao longo de mais de quatro décadas de estrada, a baiana se firmou como a mais autoral das cantoras brasileiras e conseguiu conciliar de forma magistral atributos aparentemente inconciliáveis: reverência ao passado e ousadia; independência artística e sucesso comercial; sofisticação e apelo popular. Foi a primeira mulher a vender um milhão de discos no país. Nunca se atrelou a movimentos, mesmo cercada de amigos tropicalistas; jamais se submeteu a pressão de gravadoras e sempre navegou na contramão do mercado. Tudo isso lhe garantiu uma carreira imaculada, que atravessa as décadas angariando a admiração fiel do público e da critica.
Mais do que cantora, Maria Bethânia sempre gostou de se definir como intérprete. E com justa razão. Ela deu origem a uma linhagem de cantoras que, por força de sua interpretação, tornam-se quase co-autoras das canções que passam por suas vozes. E pelo timbre grave e dramático de Bethânia já passou, e continua a passar, o melhor da música brasileira. Entretanto, de todos os compositores que cantou, nenhum ganhou mais sentido na sua voz do que Chico Buarque. Sem falsa modéstia, e com aval do próprio compositor, Bethânia costuma se dizer sua melhor intérprete. E não é para menos: em quase cinco décadas de carreira, já interpretou mais de cinquenta de suas canções. Será, portanto, emocionante poder conferir o show da diva dando vida às poesias de Chico. Levem caixas e caixas de lenço na bolsa. Lágrimas vão rolar.
Rock and Roll
Os números não mentem: sete milhões de discos vendidos, três dezenas de hits que atravessam gerações e uma intensa agenda de show – invariavelmente lotados – pelo país afora, inclusive em Goiânia, onde se apresentou na última terça-feira (18/10), com casa lotada, ou melhor, estacionamento lotado, já que foi Deck Parking Sul do shopping Flamboyant. Lulu Santos é um caso raro de artista que consegue manter a popularidade em alta, lançar discos com repertório inédito e dar continuidade a experimentação, que mistura rock, soul, funk e eletrônico, na mais perfeita tradução da música pop brasileira.
No ano em que comemora 30 anos de carreira, ele subirá ao palco despido de seus hits e de todo o repertório autoral pela primeira vez, para celebrar uma parceria responsável por outra infinita lista de canções que habitam a memória afetiva dos brasileiros há décadas: Roberto e Erasmo Carlos. A afinidade entre Lulu e o repertório da dupla já era evidente na regravação de “Se Você Pensa”, um dos grandes sucessos do álbum “Eu e Memê, Memê e Eu”, de 1995, até hoje presença cativa em todas as pistas de dança. Para o show, Lulu optou focar na fase roqueira do início da parceria do Rei com o Tremendão, entre canções que remetem à Jovem Guarda e outras afiliadas ao rock mais tradicional.
É possível ter prazer com Sandy
Enquanto o Rei Roberto Carlos será interpretado por Lulu, o Rei Michael Jackson ganhará vida na voz da eterna puritana – mesmo que se diga devassa – Sandy. Nas redes sociais, a cantora foi um pouco criticada – como quase tudo o que faz, coitada! Mas digo uma coisa: esse show do Circuito Cultural do BB veio provar que sim, é possível ter prazer com Sandy. Mais do que uma fã, a irmã de Júnior sempre se identificou com a obra e a carreira de Michael. Ambos começaram a carreira ainda crianças e bastante ligados à raiz familiar, experimentaram o sucesso avassalador na infância e passaram com louvor no desafio da carreira solo. Na primeira visita do astro pop ao Brasil, em 1993, Sandy, na época com dez anos, não somente conheceu o ídolo, como fez uma pequena participação em seu show, ao lado do irmão, no Estádio do Morumbi.
Antes mesmo da precoce morte de Jackson, em 2009, ela já havia interpretado algumas músicas de seu repertório, mas nunca tinha pensado em realizar um tributo exclusivamente dedicado a ele. A experiência será um contraste com o repertório de seu último álbum, “Manuscrito”, somente com canções autorais. “Michael fez parte da minha infância, seu talento musical era indiscutível, penso que ele é como uma lenda: imortal”, declarou a cantora. Como ela mesmo já cantou no passado, “o que é imortal, não morre no final”, não é mesmo? Esperamos ansiosos por essas misturas.
Para matar a curiosidade sobre como será o show de Sandy, assista abaixo à interpretação da cantora da canção “Ben”, em 2008: