Verdade seja dita, não sou muito bom em administrar o meu tempo. Poderia facilmente colocar a culpa no acúmulo de tarefas cotidianas – o que faço com frequência, inclusive. Mas não é o caso. Postergo decisões. Procrastino. E aí, aos 45 minutos do segundo tempo, é aquela correria maluca. Geralmente dá certo. O coração, contudo, reclama.
Este Réveillon não foi diferente. A ideia era passar longe daqui. Enrolei e não rolou. Não achei de todo mal. Em tempos de crise, qualquer economia é bem-vinda. A festa de Ano-Novo acabou acontecendo na casa de uma tia querida. Única ressalva: música sertaneja à vista. E ninguém merece passar a virada à base de Bruno, Marrone e quetais.
Como estratégia de contenção de danos, sugeri ligarmos a TV num especial do Elton John. Sou fã do cara – um indiscutível gênio da música pop. Dentre seus inúmeros predicados está a rara capacidade de agradar a um público amplo, que vai de metaleiros selvagens a ouvintes de – adivinhem – música sertaneja.
Começa o especial e nada de Elton John ao piano. Ficou ali na primeira fila, assistindo uma sequência de novos astros interpretarem seus hits. Reconheci pouca gente. Lady Gaga e só. Todos lá, se esforçando ao máximo, fingindo emoção, expurgando lágrimas de crocodilo. E ninguém entregando uma versão melhor que a original. Me senti lesado.
Ao final do especial, Sir Elton John assume seu trono e executa – com a maestria de sempre – duas míseras canções. E fim de papo. Só aumentou a raiva de eu ter aguentado aqueles jovens pop stars até ali. Me senti ainda mais lesado. E me toquei que era hora de encarar a música sertaneja. Difícil imaginar pior agouro para 2019 – um ano novo que já nasce velho e caquético.
O especial do músico britânico reviveu em mim patéticas recordações. Mais precisamente o dia 21 de fevereiro de 2014, quando Elton John, em pessoa, se apresentou pela primeira e última vez em nossa capital. Uma ridícula comédia de erros. Minha, claro.
No ano anterior, 2013, outro Sir havia feito um histórico show em Goiânia, no Estádio Serra Dourada: Paul McCartney. O alvoroço foi tão grande que acabou me irritando. Resolvi não ir ao show. Toda unanimidade é burra. Mas eu sou mais.
Com a bem-sucedida apresentação do eterno Beatle, parecia que Goiânia finalmente entraria na rota dos grandes shows. Imediatamente anunciaram Elton John e Jon Bon Jovi – pesos-pesados da indústria fonográfica mundial – como as próximas mega-atrações. Quanta ingenuidade. Nosso negócio é Villa Mix.
Inicialmente planejado para o Serra Dourada, o show de Elton logo foi deslocado para o horroroso vizinho Goiânia Arena. Me pareceu um sinal preciso de que as vendas de ingresso não corriam muito bem. Foi então que comecei a acreditar que acabaria conseguindo um par de entradas na faixa. E a exercer minha inestimável capacidade de deixar pra correr atrás só quando o tempo está praticamente esgotado. Sabe como é… Muito trabalho acumulado.
Chega o dia do show e finalmente dou minha investida fatal atrás dos ingressos. Só não contava com o dilúvio que caiu sobre Goiânia naquela tarde. A operação durou horas, mas finalmente descolei os dois bilhetes – um deles para minha esposa. Os ponteiros do relógio avançavam sem um pingo de clemência. De qualquer forma, imaginei que a entrada no Arena não seria complicada – afinal, as vendas não pareciam expressivas.
Encontrar uma vaga para estacionar foi outra novela. Tumulto grande por causa da chuva e da desorganização no acesso ao ginásio. Duvidei da pontualidade britânica e levei tinta. Antes mesmo de adentrar os portões, ouvi os matadores acordes de Bennie and The Jetts – provavelmente minha faixa preferida de todo o extenso repertório do artista. Meu coração sangrou.
Descubro então que meus ingressos não eram para a pista, mas para a arquibancada – que estava absolutamente lotada. Parecia que Goiânia inteira havia ganho entradas semelhantes às minhas. Dois casais de amigos compraram bilhetes para a frente do palco a um preço bem mais que justo. Eu, muquirana, me dei mal. E confesso que nem foi por causa da grana, e sim pelo tempo gasto para conseguir os malditos ingressos.
O fato é que fiquei atrás do palco. Isso mesmo: atrás do palco! Era impossível enxergar a banda. Nem a extravagância das lantejoulas de seu figurino fizeram Elton John visível para mim. Oportunidade única de assistir ao show de um ídolo em casa e eu ali, no pior lugar de todo o Goiânia Arena. Uma lição dura, dolorosa e amarga. E sequer posso afirmar que aprendi direito.
De qualquer forma, sou extremamente grato a estes dois momentos relacionados ao grande Elton John: me senti lesado com o especial de TV e fui um pateta no show de 2014. O atual governo brasileiro tomou posse há menos de uma semana e já extinguiu o Ministério da Cultura, colocou a demarcação de terras indígenas nas mãos do Ministério da Agricultura, reduziu o risível aumento do salário mínimo e declarou para todo mundo ouvir que, daqui por diante, “menino veste azul e menina veste rosa”. Seremos lesados e feitos de pateta. Valeu, Elton! Me sinto mais que preparado para enfrentar este 2019.