Goiânia – Previsibilidade. Aí está uma coisa que admiro. Prezo muito ter alguma ideia sobre o que esperar de cada situação. Mesmo que tudo seja desconstruído pela sedutora ação do imponderável, me satisfaz saber que existe um plano armado, uma rota a ser seguida, algo estudado. Se tudo virar água devido a um fato novo, beleza! Estamos aí para isso mesmo. Mas não ter noção alguma do que vem adiante me causa profunda angústia.
Sempre fico sem chão quando me deparo com alguém que sofre de bipolaridade. A mudança abrupta de humor me deixa completamente desnorteado. Fico pensando: “mas há um minuto a pessoa estava gargalhando sobre alguma banalidade e sem o menor motivo razoável blasfema contra tudo e todos agora?”. Sério, é demais para mim. Prefiro a distância. Subverto a lógica tradicional: se não posso vencê-los, afasto me deles. É para preservar minha sanidade. Imagino o quão torturante deve ser conviver de forma íntima com alguém assim. Ainda bem que ainda não passei por isso. Não suportaria.
As variações de humor são absolutamente normais e corriqueiras. Quem não fica feliz ao receber a notícia de um aumento no salário? E quem não fica abatido por completo com uma ligação anunciando o falecimento de um ente querido? O grande lance é que essas mudanças são de uma previsibilidade notória. Já se espera que alguém em contato com esse tipo de fato tenha determinado tipo de comportamento. O estranho seriam reações diferentes. Ou seja, mais uma vez estou falando do terreno certo, do previsível.
A reação de um bipolar frente aquilo que a média considera corriqueiro é que me causa espanto. Tudo bem que a noção de corriqueiro pode variar muito de pessoa para pessoa. Algo que me incomoda profundamente pode ser visto como insignificante para muitos. De boa. A beleza do ser humano reside na pluralidade. Contudo, existem limites para isso. Vou dar um exemplo. O cara está empolgadíssimo por que vai sair com um pessoal que ele gosta e considera divertido. Fala disso o dia inteiro. Já no local da festa, no meio de uma conversa completamente sem intenção de nada fora o entretenimento, surge um comentário elogioso sobre alguém que não está na roda e é um desafeto do bipolar. E o mundo do cara vem abaixo por conta de uma única frase. Uma pessoa estragar a balada de uma galera por conta de um fala generosa a alguém que ela não gosta é excessivo. Ultrapassa o limite do razoável. E ultrapassa o meu limite.
Sei que muitas vezes não somos conscientes dos males que estamos sofrendo. Por isso ouvir os outros e procurar ajuda especializada é fundamental. Ninguém é obrigado a conviver com loucura dos outros. Nem o próprio doente. O problema é que o braço só é estendido para aquele que quer se salvar. Quando o cara não quer, é um direito dele. Assim como é um direito de quem não quer essa convivência se afastar.