Goiânia – Xuxa vem se transformando na arena pública há um bom tempo. É clara a transição da imagem que ela tinha na década de 1980 para a que tem hoje. Isso é até elementar. Quem seria o mesmo depois de mais de 30 anos de vida pública? Ela vem apoiando causas que considera relevantes também há um bom tempo, afastando-se da imagem que construiu no início de sua carreira.
Na última quarta-feira, ela esteve no Congresso Nacional para defender a alteração no Estatuto da Criança e Adolscente (ECA) no intuito de proibir penas físicas para menores de 18 anos. É a tal da Lei da Palmada, como ficou popularmente conhecida.
O projeto não tem o apoio da bancada evangélica. Não faço a mínima ideia do porquê, pois não sabia que pastores defendiam a surra de cinto em menino desobediente. A bancada evangélica empata a análise do texto há um par de anos. Xuxa fez uso de sua influência como figura pública para tentar desenrolar essa pauta pela causa na qual ela milita. Nada mais justo e democrático na perspectiva representativa que vivemos – quem quer algo, que pressione seu parlamentar para que o mesmo se alinhe ao pensamento que você considera ideal. A apresentadora só não imaginava que seria recebida de forma tão vil e baixa no Congresso Nacional.
O deputado federal pernambucano Pastor Eurico (PSB) jogou sujo. Lembrou um passado que Xuxa se arrepende e que, tenho certeza, não se orgulha. Nada mais natural. Você sente orgulho de tudo que já fez na vida? Pois é, nem eu.
Imagine se um erro que tivéssemos cometido na vida tirasse a legitimidade de tudo que propuséssemos de positivo dali em diante? Seria melhor a morte do que conviver com tamanho fardo. Pois é nessa linha de pensamento que se filia o deputado religioso. Esquecendo de que o cara que ele certamente tem como referência dizia para só atirar a primeira pedra quem nunca pecou, o deputado deu uma aula de deselegância ao citar o filme Estranho Amor no qual Xuxa, então em início de carreira, contracena de forma sensual com um garoto.
Só que a apresentadora é experiente quando o assunto é saia justa ao vivo. Mandou um "ahãn, senta lá, Pastor" e fez o coraçãozinho com os dedos. Enquanto ele vinha com pedras, ela com o popular gesto de carinho; ele na agressividade, ela no sorriso. Quem foi mesmo mais cristão nessa hora?
Nada me preocupa mais do que o fundamentalismo exacerbado de alguns no Brasil de hoje. A intolerância é mãe primeira da violência. Antes eu achava que era a desigualdade. Hoje não tenho mais essa convicção. Acho que o ódio pelo diferente é um problema maior.
Só um parêntesis, veja só a que ponto cheguei: estou elogiando a Xuxa. Quem te viu e quem te vê, seu Pablo…
A real é que o Brasil seria um lugar mais decente se tivéssemos mais gente como a Xuxa, que sabe que fez coisas que não mais representam seu pensamento hoje mas, mesmo assim, enfia a cara na luta pelo que acredita, do que de boçais sectários e cheios de ódio como o deputado pernambucano.