Goiânia – Cresci me deliciando com a coluna “Criança diz cada uma”, do dramaturgo, médico e escritor Pedro Bloch, na extinta revista “Manchete”. Toda semana, ele relatava algumas tiradas dos pequenos que atendia em seu consultório pediátrico. Como na sexta-feira (12/10) se comemora o dia deles, decidi reunir as melhores pérolas contadas por meus amigos que têm filhos nos últimos meses, e compartilhar aqui, com você, leitor:
Laura, 4 anos
A mãe, divorciada, arranjou um namorado. A avó materna pergunta à garota:
– Está gostando do novo namorado da sua mãe, Laurinha?
– Não, vovó.
– Por que?
– Toda vez que a minha mamãe encontra com ele, ela volta chorando pra casa. Acho que é porque ele coloca ela de castigo!
João Pedro, 7 anos
Enquanto escova os dentes, diz à mãe:
– Mãe, sabia que este corpo não é meu? Deus só me emprestou. O que eu sou mesmo é o que tem dentro dele.
Rafaela, 5 anos
Rafaela passeia com o pai no shopping. Pede para brincar em joguinhos eletrônicos e joga. Pede chiclete, ganha. Lá pelas tantas, diz:
– Papai, você é um comprão!
– Por que? O que é ‘comprão’, filha?
– É um pai que compra tudo pras crianças!
Tomás, 8 anos
Entra no quarto da mãe e tem o seguinte diálogo:
– Mãe, me deixa dormir na sua cama…
– Filho, você está tão crescido.
– Mas é que eu posso ter um pesadelo e quando estou do seu lado, me sinto o mais protegido dos meninos.
– Filho, você nunca está sozinho e Papai do Ceú está sempre de olho em você.
– Sabe o que é, mãe? Você só tem que me olhar e Deus tem que olhar todo mundo e ainda anotar as besteiras que os grandes fazem. É muita coisa para Ele.
– É muita coisa, mas Ele dá conta.
– Mas tadinho, mãe. É melhor você mesma me olhar hoje à noite e dar uma folga para Deus.
Mariana, 3 anos
Mariana pede para a mãe:
– Mamãe, faze abo de potó no bêio da Manana.
– Faço, mas repete comigo: rrrrrraaaaa
– rrrrraaaaa
– bo
– bo
– de ca
– de ca
– va
– va
– lo
– lo
– Isso, Mariana! Fala pra mamãe: rabo de ca-va-lo.
– Abo de potó.
Lucas, 5 anos
No começo da noite, a energia do prédio onde o garoto mora acaba. Sem TV nem computador, a mãe diverte o menino contando histórias, brincando de fazer cócegas e contar piadas. Horas depois, a energia volta. Lucas toma banho e a mãe o coloca para dormir.
– Espera um pouquinho, mamãe. Preciso fazer uma coisa.
– Fazer o quê, filho?
– Um pedido pro papai do céu.
– O que você quer dele?
– Vou pedir pra energia acabar toda noite aqui em casa.
Lara, 3 anos
Acordada de madrugada, a mãe é lembrada de sua desafiadora missão:
– Mamãe, você me ensina a entender as coisas?
Segundo Pedro Bloch, "adultos são o que as crianças se tornam depois que começam a produzir hormônios e a largar sonhos pelo caminho. E é assim que nos tornamos maduros, responsáveis e burrocráticos". Que no Dia da Criança possamos refletir sobre os sonhos que deixamos pelo caminho e sobre nossa “burrocracia” cotidiana.
Que a alegria, a espontaneidade e a esperança dos pequenos nos contagiem e que tenhamos sabedoria suficiente para aprender com eles. Como Pedro Bloch, que certa vez perguntou a um pequeno paciente o que ele queria ser quando crescer. “Médico? Engenheiro? Advogado?”, questionou o doutor.
“Que nada. Eu quero é ser moleque”, disse o menino. Ele concordou com o garoto. Eu também.
* Agradecimentos especiais aos amigos Ana Canêdo, Cláudia Barbosa, Danilo Macedo, Luísa Dias, Nubya Castro, Rodrigo Ledo e Víbia Camargo, sem os quais o compartilhamento dessas pérolas infantis seria impossível.