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Crise e oportunidade

30.03.2022 - 11:24:26
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A guerra entre Rússia e Ucrânia tem efeitos sentidos não apenas entre os contendores e seus povos. Há reflexos sociais em outros países do leste europeu, principais destinos dos refugiados ucranianos, como a Polônia, Hungria e Eslováquia. Mas existem também os efeitos econômicos que ultrapassam as fronteiras e mares, e já podem ser sentidas em nações por todo o mundo.
 
Isso se dá pelo fato das correntes econômicas atualmente serem globalizadas. O impacto mais imediato sentido de maneira generalizada é o aumento do valor do barril de petróleo que chegou ao patamar de US$ 130 há poucos dias. Por ser um produto essencial para a atividade econômica, o aumento foi imediatamente sentido no bolso da população, ao abastecer os seus carros.
 
De fato, o fluxo comercial da Rússia com o Brasil e outros países está comprometido, ao menos enquanto durar o conflito, devido às sanções aplicadas à Rússia. No caso do Brasil, os impactos mais graves poderão se abater sobre um setor extremamente importante para a nossa economia: o agronegócio.
 
Em tempos de seguidas crises econômicas, o agronegócio tem garantido o saldo positivo da nossa balança comercial há anos. Em 2021, esse saldo superavitário do comércio exterior do agronegócio foi de US$ 87,76 bilhões. As exportações brasileiras do agronegócio somaram US$ 100,81 bilhões em 2020, segundo maior valor da série histórica, atrás somente de 2018 (US$ 101,17 bilhões). Em relação a 2019, houve crescimento de 4,1% nas vendas externas do setor.
 
Um dos principais insumos utilizados nesse setor produtivo são os fertilizantes, que são responsáveis por fornecer nutrientes para as plantas. Devido ao grande volume da nossa produção, o Brasil ocupa a 4ª posição mundial com cerca de 8% do consumo global de fertilizantes. No entanto, cerca de 85% dos fertilizantes utilizados no Brasil são importados, e desse montante, 50% vem de Belarus e Rússia.
 
Com o advento da guerra e a ameaça de restrição no fornecimento acendeu-se um alerta que escancarou a escandalosa e inexplicável dependência brasileira da importação desses produtos essenciais para a atividade agrícola. A vulnerabilidade do país num setor tão estratégico, até mesmo para a nossa segurança alimentar, é algo inaceitável e precisa ser enfrentada.
 
Segundo dados da Agência Nacional de Mineração, as reservas oficiais de sais de potássio no Brasil são da ordem de 13,03 bilhões de toneladas (silvinita e carnalita), das quais 64,9% medidas, 24,6% indicadas e 10,5% inferidas. Essas reservas estão localizadas nos Estados de Sergipe (Bacia Sedimentar de Sergipe) e Amazonas (Bacia Sedimentar do Amazonas-Solimões).
 
Todo esse potencial ainda não foi devidamente explorado pela falta de visão estratégica dos governos brasileiros, o que atrasou investimentos para desenvolver a tecnologia necessária na extração do produto, que em alguns locais está a 2 quilômetros de profundidade. Por outro lado, há também o engessamento da atividade por conta de restrições legais, sobretudo na Amazônia, onde há, por exemplo, a necessidade de consulta a povos indígenas afetados pela exploração.
 
Ainda que com atraso, o Brasil busca viabilizar medidas que poderão reverter esse quadro nos próximos anos. Nesse sentido, o Governo Federal lançou o Plano Nacional de Fertilizantes, que tem o objetivo de readequar o equilíbrio entre a produção nacional e a importação ao atender sua crescente demanda por produtos e tecnologias de fertilizantes. Pretende-se diminuir a dependência de importações, até 2050, de 85% para 45%, portanto, uma estratégia de longo prazo. E enquanto essa autonomia não chega, a busca por alternativas a curto e médio prazo também é importante, como a ampliação de exportações de fertilizantes de outros fornecedores, como o Canadá, cujas tratativas nesse sentido foram anunciadas recentemente pela ministra da Agricultura, Tereza Cristina.
 
Pena que tenha sido preciso eclodir uma guerra para que houvesse esse despertamento. Como brasileiros, esperamos que não se perca mais essa oportunidade de tirar o país do atraso e da ineficiência. A vulnerabilidade do país num setor tão estratégico, até mesmo para a nossa segurança alimentar, é algo inaceitável e precisa ser enfrentada. Afinal, é na crise que surgem as oportunidades! 
 
*Ismael Almeida é consultor Político e especialista da Fundação da Liberdade Econômica.

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por Ismael Almeida

*Mônica Parreira é repórter do jornal A Redação

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