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Cuidado: pitiful à solta

25.10.2011 - 13:48:41
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Não, você não se enganou. O título desse texto não está escrito de forma errada. Não é à raça de cães Pit Bull a que me refiro, mas a um tipo muito específico de pessoas. Já que falar em inglês está na moda, vamos deixar a coisa mais chique. Se quem é bonito é beautiful, então quem gosta de dar piti e armar barraco é pitiful. 
Não interessa se o ser em questão é um pitiful macho ou fêmea, pois o estrago que ele é capaz de provocar é grande. Nos últimos dias, tenho me deparado com vários exemplares da raça e constatado que, infelizmente, eles estão se multiplicando com a velocidade da luz. Quando menos se espera, o pitiful pode atacar. 
Há alguns dias, presenciei um espetáculo com uma pitiful fêmea. Meu escritório fica ao lado de um consultório médico. Ao sair de lá com o marido, a mulher deu um chilique daqueles. Como ele disse alguma coisa que ela não gostou durante a consulta, a mulher esperou sair do consultório e armou um senhor barraco.
Aos berros – sim, berros, daquele tipo que a gente pensa que a pessoa está presa num local pegando fogo, ou que perdeu a família toda num acidente — , ela dizia que o marido não tinha a menor consideração por ela e era um idiota. Quando mais gente aparecia no corredor para ver o que estava acontecendo, mais a mulher gritava.
Poucos dias depois, fui a um bar no Setor Oeste e presenciei o chilique de um pitiful macho. Ao perceber que o ex da namorada também estava no local, ele mandou que ela se levantasse para ir embora, aos gritos. Envergonhada, a moça pediu que ele se acalmasse. Aí é que o pitiful começou a berrar alto e forte.
Vendo que a namorada não ia ceder, o homem levantou-se e foi embora. Saiu sem pagar a conta e sem olhar pra trás. Extremamente constrangida, ela chamou o garçom, deixou uma nota de R$ 50,00 (valor bem maior que os dois chopes que eles haviam consumido) e desapareceu rapidamente. 
Esse tipo de gente já me causou reações diversas. Já achei esses barracos irritantes, chatos, degradantes. Hoje, acho tristes. Profundamente tristes. É a prova mais irrefutável do descontrole emocional e da ausência de tolerância à frustração de uma pessoa. É a prova de que ela estagnou nos 5 anos de idade.
Freud explica. Segundo o pai da psicanálise, a paixão nos faz regredir emocionalmente, levando-nos a vivenciar nossos medos mais primários e inconscientes. Fobias, conflitos e travas da infância voltam com força total. Explica, mas não justifica. Terapia existe para isso. Tem divã para todo mundo nessa cidade.
Não há nada pior do que ser totalmente dependente do olhar do outro, das reações do par. Se ele faz e diz o que eu quero, meu dia é lindo, fico calmo e tranquilo, tudo está ótimo. Se ele me desagrada, me desestabilizo por completo e quero agredi-lo, destruo o que vejo pela frente.
Também é patético o fato de a pessoa que achar que, com gritos e palavrões, vai conseguir meter medo em alguém. Durante um tempo, ela pode até envergonhar o outro, mas não passa disso. Se berrar impedisse alguém de fazer algo que não queremos, bebês seriam presidentes dos Estados Unidos. 
Há mais um detalhe triste. Quando a pessoa arma um barraco, quando ela dá um baita piti, traz aquilo que é da sua vida mais íntima e privada para a esfera pública. Dá aos outros o direito de palpitarem na vida dela o quanto quiserem, de massacrarem  suas fragilidades e daqueles com quem ela se envolve.
 
Ninguém consegue ser 100% sereno e ponderado, 24 horas por dia. Perder a paciência é normal. Xingar e esbravejar, às vezes, não apenas é normal, como também é necessário. O que foge do meu entendimento é fazer isso o tempo inteiro, por qualquer bobagem. Descer do salto e ficar descalço toda hora é baixaria. 
O único lugar onde armar barraco rende alguma coisa para alguém é no Big Brother. Na vida real, os olhos e ouvidos alheios registram muito mais do que mil câmeras, com uma desvantagem: não tem jeito de voltar o arquivo e editar na cabeça das pessoas as cenas em que deveria aparecer o barulho “piiiiiiiiiiiiiiiiiii”. 
Voltando ao inglês, brincadeiras à parte, a palavra “pitiful” existe mesmo. Significa “patético”, “lamentável”, “deplorável”, “lastimável”. Ótimos adjetivos para os barraqueiros e barraqueiras de plantão. Desabafo feito, melhor parar por aqui. Vai que algum leitor revoltado resolve dar um piti…
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por Fabrícia Hamu

*Jornalista formada pela UFG e mestre em Relações Internacionais pela Université de Liège (Bélgica)

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